“Se Deus abandonou esta infeliz cidade à beira do Drina, com certeza vai abandonar todo o mundo e tudo o que existe debaixo dos céus. E esta devastação não há-de durar para sempre (…) Tudo pode acontecer, menos uma coisa: Nunca vão desaparecer por inteiro e para sempre da face da terra aqueles homens grandes e sábios, todas aquelas almas nobres que constroem obras duradouras para a glória de Deus, para tornar o mundo mais belo e a vida humana mais fácil. Porque se eles desaparecessem, isso significaria que o amor de Deus se tinha extinguido deste mundo. Isso nunca podia ser”
Ivo Andric, A ponte sobre o Drina
Nesse mesmo dia, a mais de 4.000 kms de distância, naquele que era suposto ser mais um dia de escola com a mesma rotina de sempre, vi no noticiário as imagens da ponte a ser destruída. Nunca tinha visto nada assim…As imagens deixaram-me triste, apesar de nunca ter ouvido falar na ponte, e muito menos em Mostar, e de todo aquele pesadelo me parecer demasiado longínquo.
Na altura nunca imaginei que um dia ia estar naquela mesma cidade.
Durante uma visita a uma das mesquitas da cidade, subimos ao minarete para apreciar a vista sobre a cidade, e eis que entre os edifícios, surge a bela ponte reconstruída. Assim que a vi foi amor à primeira vista, e não descansei enquanto não a atravessei e parei num dos bares a beber chá, enquanto contemplava a bela ponte sobre o rio que corria suave e imperturbável. Havia algo naquela ponte que me fascinava e me fazia olhar apenas para ela. Queria guardar aquele momento na minha memória, e saboreá-lo por muitos e bons anos. Naquele dia apercebi-me que a beleza e a bondade triunfaram sobre o ódio e o desejo de separar o que a ponte tinha unido.
Ao deixar Mostar, e apesar das cicatrizes que teimavam em estar abertas, espalhadas por toda a cidade, sentia-me feliz, porque o belo rio Esmeralda corre mais uma vez sobre o arco-íris que sobe em direcção ao céu…



