Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Bosnia e Herzegovina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bosnia e Herzegovina. Mostrar todas as mensagens

17 de fevereiro de 2011

Que nunca caiam as pontes entre nós II

“Se Deus abandonou esta infeliz cidade à beira do Drina, com certeza vai abandonar todo o mundo e tudo o que existe debaixo dos céus. E esta devastação não há-de durar para sempre (…) Tudo pode acontecer, menos uma coisa: Nunca vão desaparecer por inteiro e para sempre da face da terra aqueles homens grandes e sábios, todas aquelas almas nobres que constroem obras duradouras para a glória de Deus, para tornar o mundo mais belo e a vida humana mais fácil. Porque se eles desaparecessem, isso significaria que o amor de Deus se tinha extinguido deste mundo. Isso nunca podia ser”
Ivo Andric, A ponte sobre o Drina

Apesar da cidade estar reduzida a escombros, a destruição daquela ponte foi um golpe mortal para todos os que nela habitavam e amavam o que era belo, os mesmos para quem a ponte era muito mais que um mero local de passagem, e onde até à pouco tempo tantas horas tinham passado. Aquilo que os unia como uma comunidade, jazia agora nas águas turvas em que o belo rio que outrora era esmeralda se converteu...Tinha sido um ataque sem outra intenção que não destruir o que é belo e matar a memória colectiva de uma cidade outrora unida.

Nesse mesmo dia, a mais de 4.000 kms de distância, naquele que era suposto ser mais um dia de escola com a mesma rotina de sempre, vi no noticiário as imagens da ponte a ser destruída. Nunca tinha visto nada assim…As imagens  deixaram-me triste, apesar de nunca ter ouvido falar na ponte, e muito menos em Mostar, e de todo aquele pesadelo me parecer demasiado longínquo.
Na altura nunca imaginei que um dia ia estar naquela mesma cidade.

Passados 11 anos, durante uma viagem pelos Balcãs, paramos em Mostar. À medida que percorria as ruas, vi ainda muita da destruição que fez parte do quotidiano desta cidade durante 4 anos. É um choque atravessar uma cidade destruída quando estamos habituados à nossa zona de conforto, parecendo que entramos na twilight zone.
Durante uma visita a uma das mesquitas da cidade, subimos ao minarete para apreciar a vista sobre a cidade, e eis que entre os edifícios, surge a bela ponte reconstruída. Assim que a vi foi amor à primeira vista, e não descansei enquanto não a atravessei e parei num dos bares a beber chá, enquanto contemplava a bela ponte sobre o rio que corria suave e imperturbável. Havia algo naquela ponte que me fascinava e me fazia olhar apenas para ela. Queria guardar aquele momento na minha memória, e saboreá-lo por muitos e bons anos. Naquele dia apercebi-me que a beleza e a bondade triunfaram sobre o ódio e o desejo de separar o que a ponte tinha unido.

Ao deixar Mostar, e apesar das cicatrizes que teimavam em estar abertas, espalhadas por toda a cidade, sentia-me feliz, porque o belo rio Esmeralda corre mais uma vez sobre o arco-íris que sobe em direcção ao céu…

Que nunca caiam as pontes entre nós I


Muitos de nós atravessam pontes durante uma semana de
trabalho, às vezes até mais de que uma vez durante um dia normal. No dicionário a palavra ponte significa “construção que permite interligar ao mesmo nível pontos não acessíveis separados por rios, vales, ou outros obstáculos naturais ou artificiais”.
Todas as pontes têm essa função, no entanto algumas fazem mais do que simplesmente ligar pontos que não estão acessíveis, têm histórias mágicas que merecem ser contadas. Hoje vou contar a história de uma dessas pontes…

Todas as histórias começam por era uma vez, e esta não será excepção…Era uma vez um sultão Turco que decidiu mandar construir uma ponte para substituir uma velha ponte de madeira pouco segura.
O arquitecto encarregue de desenhar a nova ponte decidiu não fazer apenas mais uma ponte, igual a tantas outras, decidiu fazer uma obra que ficasse na história, apesar de estar ameaçado de morte caso a construção não fosse sólida.
Após 9 longos anos de construção, ficou finalmente concluída em 1566 ou 1567. Uma das lendas conta que quando a colossal ponte foi concluída o arquitecto preparou o seu próprio funeral para o caso da estrutura entrar em colapso.
 Quando finalmente foi retirado o último andaime, tinha o maior arco feito pelo homem, sendo considerada uma das maiores obras de arquitectura do seu tempo, havendo quem a descrevesse como “um arco-íris arco subindo para o céu, estendendo-se de um penhasco para o outro”.

Graças à ponte, uma aldeia desenvolveu-se durante 427 anos, espraiando-se pelas duas margens do rio esmeralda outrora intransponível, tornando-se mais do que um mero ponto de passagem e convertendo-se na cidade de Mostar (Guardiões da ponte). Com o tempo outros monumentos imponentes surgiram na cidade, e outras pontes ligaram as duas margens do rio. Porém, todos os olhos se concentravam na construção que deu origem à cidade, como se a velha ponte fosse de facto o seu coração, unindo todos os que a habitavam, acolhendo nos seus parapeitos sobre o rio crianças que brincavam atirando pedras ao rio, amigos que se encontravam para colocar a conversa em dia, adolescentes atirando-se ao rio em busca de fama e prestígio e casais de namorados faziam juras de amor eterno, fossem eles Croatas, Bósnios Muçulmanos ou Sérvios, enquanto o belo rio esmeralda corria por baixo da ponte, indiferente a todas.
Durante séculos, a cidade viveu em comunhão com a ponte, formando uma comunidade pacífica, unida e próspera.
 Até que…Num triste dia para a humanidade, a bela ponte sucumbiu face ao ódio humano pelo que é belo, na manhã do dia 9 de Novembro de 1993.