A nossa vida, desde que nascemos até ao último suspiro é feita de uma série de acontecimentos que provocam reacções em cadeia. A vida é feita de vivências, momentos inesquecíveis, pessoas insubstituíveis, amor, desafios, paixões, desejos, ambições, viagens, dor, sofrimento, luto, luta, desejo, memórias e sonhos. Tudo isso faz parte do eu de todos nós e das vidas dos que nos rodeiam, criando uma odisseia sem fim. Este blog é o relato da minha odisseia.
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9 de novembro de 2023
O Europeu comum único
Sempre ouvi dizer que o tempo passa e tudo cura, e de facto é verdade. O tempo ajuda a diluir a tristeza e torna tudo mais relativo.
No entanto, por vezes a ligação que temos é tão forte que faz com que a sensação de perda e falta subsista, atingindo-nos invariavelmente durante algum tempo. Outras vezes, e por vezes em momentos inusitados, um objecto, um momento ou um cheiro traz a lembrança de bons momentos passados, que nos faz viver esse momento passado no nosso presente por uns breves momentos, e traz um sorriso, uma gargalhada ou um brilho nos olhos. Um realce de bons momentos de um tempo feliz vivido.
Hoje é um desses dias de sensações mistas, que misturam uma sensação enorme de perda com a lembrança de muitos bons momentos, que marcam um ano desde que tive de me despedir de um europeu comum de pelagem curta preta e branca com olhos verdes expressivos, meigo, brincalhão e comilão, que também era um grande amigo e companheiro.
Um amigo que me acompanhou durante 9 anos, 1 mês e 8 dias. Uns dias foram mais alegres, outros mais tristes e outros assim assim, mas todos foram dias únicos e irrepetíveis de uma história feliz de um casal, cuja companhia diária foi um europeu comum meigo e companheiro como poucos, e que marcou as nossas vidas para sempre.
O nosso tempo juntos correu ligeiro para nós os três, como a corrente de um rio, imparável e imutável, assim como este tempo de ausência e saudade. Mas ficou e ficará sempre as recordações.
Obrigado por teres feito parte da nossa vida querido amigo Jimmy, o nosso europeu comum único e inesquecível, que recordamos e recordaremos todos os dias...Always to eternity.
30 de dezembro de 2022
Balanço de 2022 - um "Annus horribilis" e o fim de um ciclo
E eis que chega a altura do ano de fazer um balanço de 2022, um ano de perda e de ruptura, e o fim de um ciclo.
Ao contrário dos anos do covid e do confinamento, que foram anos atípicos, de torpor, de conformação e em que nos limitamos a passar o tempo a ver séries e ir gerindo as coisas, este foi um ano mau, para não dizer de merda, sobretudo na parte final, com uma perda irreparável do nosso querido Jimmy, de mais uma tentativa de reaproximação familiar que acabou em ruptura familiar e variadas chatices, sustos e problemas.
Não vou guardar boas memórias do que se passou, bem pelo contrário, parece que estou a reviver 2016 novamente.
2022 salva-se sobretudo por uma viagem de sonho a um país mágico, e da realização de um sonho de criança de ver o Alhambra, e pouco mais. Foi também o ano que voltei a escrever neste blog, por perceber que me faz bem escrever e desabafar.
Apesar de não esperar muito de 2023, este final de ano serviu pra me despertar do estado de torpor e conformação dos anos covid e da tristeza e depressão que me atingiu desde a decisão de morte do Jimmy que tive de tomar para que não sofresse.
Termino o ano desperto, atento, concentrado e tremendamente focado e determinado como há alguns anos não estava. Entro neste novo ano com balanço e ganas de lutar como em 2017/2019.
Não sei o que aí vem em 2023, mas estou pronto para lutar e tomar todas as decisões difíceis que tiver de tomar.
9 de novembro de 2022
Ninguém é substituível
Há quem insista em dizer que os animais de estimação são apenas animais, e que ninguém nem nada é insubstituível. Tenho ouvido isto muitas vezes ao longo da vida. Não podem estar mais errados!
Hoje, dia 9 de Novembro de 2022, será provavelmente o dia em que vamos ter de nos despedir do nosso gatinho Jimmy. Têm sido dias e horas muito duros, porque o Jimmy é um animal, mas é também muito mais que isso, é um amigo e um membro da família, de quem hoje nos vamos ter de despedir à hora marcada...
Têm sido 9 anos muito bons na companhia dele, 9 anos em que crescemos e evoluimos como casal, sempre na companhia dele, praticamente todos os dias do ano, e de forma incondicional. O Jimmy acompanhou os nossos dias, as nossas alegrias, tristezas, saúde, doenças. Ele tem estado sempre lá para nós, amando-nos de forma incondicional, dando-nos turrinhas, ronronando, miando ou apenas estando presente, muito mais que a maioria das pessoas que nos rodeiam.
Como é que a presença dele é substituível? Eu não consigo conceber um substituto para o nosso Jimmy. Não há, não existe, nunca existirá, porque ele é único e insubstituível.
Quem verdadeiramente gosta de animais sabe o que sentimos. Uma tristeza enorme por vermos partir o nosso amigo, e sabemos que não há nada nem ninguém que vá ocupar o vazio deixado pela partida do nosso leãozinho preto e branco...
28 de agosto de 2013
Eu tenho um sonho, cinquenta anos depois
Passam hoje 50 anos desde que Martin Luther King discursou em Washington, para uma multidão que se reuniu para se manifestar contra a segregação racial dos estados sulistas dos EUA.
Para muitos milhões de americanos reprimidos pela segregação que as leis raciais impunham, este discurso histórico foi um raio de esperança na sua luta pela liberdade e igualdade.
Graças a grandes homens e mulheres humanistas como Luther King, Ghandi, Nelson Mandela, Rosa Parks e Kate Sheppard, que lutaram contra leis que restringiam a sua liberdade e a dos seus, contra a intolerância de seres humanos por seres humanos e a injustiça, o nosso planeta tornou-se um lugar mais justo.
Cinquenta anos depois de Luther King ter proferido estas palavras, fica uma reflexão, o que mudou? O que falta mudar para tornar este planeta um sítio mais justo, fraterno, igualitário, humano? Devemos continuar a sonhar e a lutar por um mundo mais justo, fraterno e humano ?
Quando paro para olhar, apercebo-me de que falta muito, muito mesmo. Esta é uma tarefa que não tem fim, e provavelmente nunca terá. Mas hoje, quando cresce o sentimento de injustiça, a miséria, a intolerância, quando milhões de pessoas estão desempregadas e perdem a sua esperança, quando a corrupção e falência dos modelos de governação estão à vista e existe uma perda generalizada de valores morais e éticos, importa não esquecer as palavras deste mesmo discurso proferido à cinquenta anos:
"Não, nós não estamos satisfeitos, nem iremos estar satisfeitos até a justiça rolar como a água e a rectidão como uma corrente poderosa (...) Não nos deixemos cair no vale do desespero. Eu digo-vos, meus amigos, nós temos dificuldades de hoje e amanhã. Eu hoje tenho um sonho (...) Com esta fé vamos ser capazes de transformar as discórdias estridentes da nossa nação numa bela sinfonia de irmandade"
Nunca é tempo perdido, mesmo para os que pensam que os discursos são uma seca, deixar de ouvir este discurso poderoso e inspirador, sobretudo nos dias de hoje, por isso deixo-vos o vídeo do discurso que foi também o início do fim da segregação. Espero que sirva de inspiração a todos nós, para que nunca deixem de lutar pelos sonhos, e para que nunca abdiquemos de dia após dia, tornarmos o mundo em que vivemos num lugar mais justo e fraterno. Lembrem-se que por mais insignificantes que pareça, basta um pequeno gesto para fazer a diferença.
Para muitos milhões de americanos reprimidos pela segregação que as leis raciais impunham, este discurso histórico foi um raio de esperança na sua luta pela liberdade e igualdade.
Graças a grandes homens e mulheres humanistas como Luther King, Ghandi, Nelson Mandela, Rosa Parks e Kate Sheppard, que lutaram contra leis que restringiam a sua liberdade e a dos seus, contra a intolerância de seres humanos por seres humanos e a injustiça, o nosso planeta tornou-se um lugar mais justo.
Cinquenta anos depois de Luther King ter proferido estas palavras, fica uma reflexão, o que mudou? O que falta mudar para tornar este planeta um sítio mais justo, fraterno, igualitário, humano? Devemos continuar a sonhar e a lutar por um mundo mais justo, fraterno e humano ?
Quando paro para olhar, apercebo-me de que falta muito, muito mesmo. Esta é uma tarefa que não tem fim, e provavelmente nunca terá. Mas hoje, quando cresce o sentimento de injustiça, a miséria, a intolerância, quando milhões de pessoas estão desempregadas e perdem a sua esperança, quando a corrupção e falência dos modelos de governação estão à vista e existe uma perda generalizada de valores morais e éticos, importa não esquecer as palavras deste mesmo discurso proferido à cinquenta anos:
"Não, nós não estamos satisfeitos, nem iremos estar satisfeitos até a justiça rolar como a água e a rectidão como uma corrente poderosa (...) Não nos deixemos cair no vale do desespero. Eu digo-vos, meus amigos, nós temos dificuldades de hoje e amanhã. Eu hoje tenho um sonho (...) Com esta fé vamos ser capazes de transformar as discórdias estridentes da nossa nação numa bela sinfonia de irmandade"
27 de agosto de 2013
O lugar encantado a que chamo de terra
21 de dezembro de 2012
“Natal é tempo de paz, solidariedade, felicidade e união familiar.“
Em miúdo acreditava piamente nesta frase repetida até à
exaustão durante a época natalícia (e na existência do Pai Natal). Natal para
mim era uma palavra que me transportava para um local em que toda a família
convivia de forma salutar à mesa, numa grande sala iluminada em que uma lareira
acesa onde grossos toros de madeira crepitavam, com uma grande árvore de Natal
a um canto da sala, na qual se viam através das janelas flocos de neve a cair.
Penso que todas as crianças imaginam o Natal assim.
O meu Natal nunca foi o que imaginei. Uns anos faltou a lareira, noutros faltou a família toda à mesa e em todos os outros a neve a cair no exterior. Nunca faltaram as prendas, a mesa farta e a árvore de Natal, mas apesar de gostar de receber prendas, a verdade é que o que gostava mesmo era de brincar com os meus pais, ouvir as histórias do meu avô que me faziam rir como um perdido e em que as filhozes da minha avó eram presença constante no Natal.
Depois cresci e aprendi que o Pai Natal era uma invenção da
coca-cola, e que Natal para muitos se resume a comer desalmadamente, em clima
de paz podre, em que toleramos a presença de familiares de quem não gostamos ou
“desconhecidos” apenas por ser “Natal”, para logo a seguir pura e simplesmente
ignorarmos durante o resto do ano essas pessoas, e em que a maioria de nós anda
numa corrida desenfreada de loja em loja em busca de presentes para oferecer,
de uma árvore de Natal, de iluminações, de comida, de doces, ignorando a miséria
existente à nossa volta, e o facto de que na verdade até nem precisamos de
tantas prendas, tanta comida, tantos doces, tanto de tudo. Com tanta fartura a maioria
de nós acaba por não dar valor a nada do que é verdadeiramente importante no
Natal e em celebrar esta época. Eu fui um deles. Um Bom Natal passou a significar receber muitas prendas, os jantares de Natal deixaram de ter a magia de outros tempos e passaram a ser algo banal, e as filhozes passaram a ser apenas mais um item numa mesa farta de doces e comida, até chegar ao Natal passado e
tudo mudar ao receber a notícia de que seria o último Natal que uma das pessoas
mais próximas de mim iria provavelmente passar na sua vida…
Eu espero e desejo
que este seja mesmo o fim de um ciclo e o começo de outro, e que seja melhor
e sobretudo mais humano e mais verdadeiro, em que a palavra solidariedade não
seja apenas usada no Natal, e em que a verdadeira razão de ser do Natal
regresse, a alegria de juntar a família para confraternizar e conviver, sem
falsas hipocrisias nem materialismo desmesurado. É este o Natal que desejo para todos vós...
O meu Natal nunca foi o que imaginei. Uns anos faltou a lareira, noutros faltou a família toda à mesa e em todos os outros a neve a cair no exterior. Nunca faltaram as prendas, a mesa farta e a árvore de Natal, mas apesar de gostar de receber prendas, a verdade é que o que gostava mesmo era de brincar com os meus pais, ouvir as histórias do meu avô que me faziam rir como um perdido e em que as filhozes da minha avó eram presença constante no Natal.
Depois cresci e aprendi que o Pai Natal era uma invenção da
coca-cola, e que Natal para muitos se resume a comer desalmadamente, em clima
de paz podre, em que toleramos a presença de familiares de quem não gostamos ou
“desconhecidos” apenas por ser “Natal”, para logo a seguir pura e simplesmente
ignorarmos durante o resto do ano essas pessoas, e em que a maioria de nós anda
numa corrida desenfreada de loja em loja em busca de presentes para oferecer,
de uma árvore de Natal, de iluminações, de comida, de doces, ignorando a miséria
existente à nossa volta, e o facto de que na verdade até nem precisamos de
tantas prendas, tanta comida, tantos doces, tanto de tudo. Com tanta fartura a maioria
de nós acaba por não dar valor a nada do que é verdadeiramente importante no
Natal e em celebrar esta época. Eu fui um deles. Um Bom Natal passou a significar receber muitas prendas, os jantares de Natal deixaram de ter a magia de outros tempos e passaram a ser algo banal, e as filhozes passaram a ser apenas mais um item numa mesa farta de doces e comida, até chegar ao Natal passado e
tudo mudar ao receber a notícia de que seria o último Natal que uma das pessoas
mais próximas de mim iria provavelmente passar na sua vida…
Foi talvez o Natal mais triste de que tenho memória, mas
também aquele em que todo o clima de loucura consumista me passou completamente
ao lado, e voltou a ser o que era quando era pequeno, em que a alegria do
convívio à mesa se tornou o mais importante. Tudo o resto passou para um plano
secundário, com excepção das filhozes que a minha avó fez questão de fazer
apesar de já estar muito doente.
Um ano passou desde esse Natal triste mas verdadeiro. O meu
desejo é que este Natal que se aproxima seja também ele próximo do verdadeiro
espírito de Natal. Aparte disso queria também filhoses da minha avó, mas isso já
não vai ser possível.
Alguns dizem que dentro de horas o mundo acaba devido a ser o dia
final do calendário Maia. Outros defendem que este dia marca o fim de um ciclo
e o começo de outro, e outros dizem que vai ficar tudo na mesma.
Eu espero e desejo
que este seja mesmo o fim de um ciclo e o começo de outro, e que seja melhor
e sobretudo mais humano e mais verdadeiro, em que a palavra solidariedade não
seja apenas usada no Natal, e em que a verdadeira razão de ser do Natal
regresse, a alegria de juntar a família para confraternizar e conviver, sem
falsas hipocrisias nem materialismo desmesurado. É este o Natal que desejo para todos vós...
Votos de um Bom Natal para todos.
H.7 de novembro de 2012
O dia do antes de e do depois de
O dia 15 de Agosto de 2003 foi o
meu dia do antes e depois de. O meu dia de redenção, aquele em que regressei ao eu que tinha
renunciado sete anos antes, o dia em que finalmente renunciei a um caminho e objectivo que
apenas serviu para desperdiçar anos de vida, e o dia em que finalmente perdoei-me a mim próprio por um passado e uma memória sombria que provocou dor e sofrimento.
Tenho bem vivo na memória o dia em que uma memória reprimida surgiu do nada para me atingir em cheio. Lembro-me bem do sentimento de revolta e ódio que senti nesse momento ao recordar tudo o que se passou. Não passa um dia em que não me arrependa de traçar esse rumo que me fez erguer uma muralha em volta de mim para me proteger e me fez mergulhar numa espiral de ódio sem fim. Foram os piores anos da minha vida, dos quais apenas recordo os poucos bons amigos que me ajudaram a minorar o sofrimento que sentia.
Já passaram 9 anos desde o dia em que decidi perdoar-me a mim próprio, em que um acaso do destino me levou até este lugar ermo, onde um santuário solitário tem por companhia os carvalhos e pinheiros por onde o vento passa ligeiro e os cavalos selvagens e o gado coabitam de forma pacífica. Foi neste local solitário que tomei a decisão sensata de seguir outro rumo, e com isso finalmente reencontrei a paz interior que há muito procurava.
Nunca acreditei em coincidências nem no destino, mas hoje, quando olho para trás, sinto que talvez tivesse de passar por tudo isso para apreciar e dar valor a tudo o que tenho vivido e a todas as coisas boas e más que têm acontecido. Tudo isso me ajudou a ser mais humano, mais apaixonado pela vida, a lutar com determinação e garra e a dar mais valor às coisas simples da vida e aos valores morais pelos quais me oriento.
Não há dia que não agradeça por
regressar ao meu eu e tudo o que aconteceu a partir deste dia. O simples facto de ver o mundo de outra forma e de sentir novamente vontade de lutar por mim fizeram com que a vida ganhasse um novo sentido. Sei que por mais negro e sombrio que o futuro pareça ou por mais intransponível que pareça um obstáculo irei sempre lutar com a determinação de quem tem paixão pela vida, de quem está em paz consigo próprio e de quem reencontrou o sentido da palavra viver.
16 de junho de 2012
Insónia
Hoje custa-me adormecer, tenho a cabeça a funcionar a mil à
hora, como que alimentada por um dínamo imparável e inesgotável, apesar de me
sentir fisicamente esgotado.
Viro-me para o outro lado, ajeito a almofada e fecho os olhos, esperançado que isso ajude a fazer com que o sono finalmente chegue. Passados cinco minutos, cumpro o mesmo ritual e viro-me no sentido contrário, mas nada disso adianta. A cabeça continua a mil e os sentidos mais despertos que nunca.
Sei o que ocupa o meu pensamento. São memórias de tempos que ficaram presentes apesar de pertencerem ao passado, memórias de pessoas que partiram mas ficaram e ficarão para sempre comigo.
Sinto que lá em cima olham por mim, e quero que se orgulhem de mim, mas sei que nem tudo são motivos de orgulho na minha vida. Cometi erros, e cometerei muitos mais porque o erro faz parte do ser humano, e eu nada mais sou que humano. Tento fazer o melhor que posso e sei, mas sei que nem sempre isso basta para não errar.
Travo um duro combate comigo próprio para que não me venham as lágrimas à medida que vou tendo flashbacks de memórias de momentos que ficaram.
Após acalmar o coração, detenho-me mais um pouco. O vento frio da vai tornando a noite menos cálida. Sinto que é hora de regressar ao quarto, embora saiba que pouco irei dormir. Hoje vai ser um dia duro para os sentidos…Mas a vida é assim mesmo, e a vida continua para o melhor ou para o pior. Há que encará-la de caras e sem receios. Foi isso que aprendi com os que partiram.
Onde quer que estejas, feliz aniversário Avó.
Viro-me para o outro lado, ajeito a almofada e fecho os olhos, esperançado que isso ajude a fazer com que o sono finalmente chegue. Passados cinco minutos, cumpro o mesmo ritual e viro-me no sentido contrário, mas nada disso adianta. A cabeça continua a mil e os sentidos mais despertos que nunca.
Resolvo levantar-me e encaminho-me para a varanda. Está
uma noite calma, apenas se ouvem ao longe as corujas que piam em busca de
alimento no que resta do que já foi um dia um extenso olival.
As luzes dos candeeiros iluminam as ruas desertas de pessoas, e a ponte Vasco da Gama ilumina o Tejo ao longe. São 3 da manhã, sinto-me esgotado fisicamente mas resolvo ficar mais um pouco, absorto nos meus pensamentos.
As luzes dos candeeiros iluminam as ruas desertas de pessoas, e a ponte Vasco da Gama ilumina o Tejo ao longe. São 3 da manhã, sinto-me esgotado fisicamente mas resolvo ficar mais um pouco, absorto nos meus pensamentos.
Sei o que ocupa o meu pensamento. São memórias de tempos que ficaram presentes apesar de pertencerem ao passado, memórias de pessoas que partiram mas ficaram e ficarão para sempre comigo.
Sinto que lá em cima olham por mim, e quero que se orgulhem de mim, mas sei que nem tudo são motivos de orgulho na minha vida. Cometi erros, e cometerei muitos mais porque o erro faz parte do ser humano, e eu nada mais sou que humano. Tento fazer o melhor que posso e sei, mas sei que nem sempre isso basta para não errar.
Travo um duro combate comigo próprio para que não me venham as lágrimas à medida que vou tendo flashbacks de memórias de momentos que ficaram.
- Sentir é fraqueza, penso para comigo, mas não
acredito mais nessa frase que um dia fez parte da minha vida e da minha forma de
pensar como uma verdade inabalável, que um dia ruiu como um baralho de cartas.
Após acalmar o coração, detenho-me mais um pouco. O vento frio da vai tornando a noite menos cálida. Sinto que é hora de regressar ao quarto, embora saiba que pouco irei dormir. Hoje vai ser um dia duro para os sentidos…Mas a vida é assim mesmo, e a vida continua para o melhor ou para o pior. Há que encará-la de caras e sem receios. Foi isso que aprendi com os que partiram.
Onde quer que estejas, feliz aniversário Avó.
12 de junho de 2012
Lá vai Lisboa, com o seu arquinho e balão...

A véspera de Santo António é
para mim a melhor noite no ano inteiro para sair em Lisboa.
Esta é a noite em que reinam nas ruas de Lisboa os bailaricos na rua e nos largos, a música
pimba ecoa pela ruas em perfeita comunhão com as casas de fado que povoam os bairros tradicionais, o cheiro a
sardinhas assadas invade o olfacto e o fumo das sardinhadas faz com que as ruas estejam envoltas numa atmosfera de fumo e que abre o apetite para comer mais uma sardinha no pão, os manjericos com as quadras populares são vendidos ao som dos pregões tradicionais pelas vendedoras,
as marchas populares dos bairros com os arcos e balões desfilam ao som de cantigas populares a glorificar os bairros de onde são provenientes, os populares cartazes com os menus mal escritos com o já célebre há caracóis sem h e com o assento escrito da maneira errada fazem as maravilhas dos que passam e reparam, as ruas de Alfama, da Bica, da Mouraria e da Graça cobrem-se de flores, candeeiros de papel e luzes de
1001 cores, e as ruas, largos e becos ficam povoados de gente.
Tudo isso faz parte das festas populares e da identidade desta cidade linda e misteriosa que é Lisboa. Por tudo isto saímos à rua nesta noite para celebrar esta cidade e festejamos a vida, a amizade e o amor.
21 de março de 2012
Zivot je cudo (A vida é um milagre)
Depois de semanas seguidas de stress, deadlines para cumprir e intensa pressão, voltei, mais uma vez com a satisfação de mais uma missão cumprida!
E foi com bastante surpresa que me apercebi que este blog já tinha mais de 1000 visualizações...Nunca pensei chegar a esta marca tão rápido, mas é sinal de que gostam do que escrevo, e isso incentiva-me a escrever mais.
Por isso por este ser o último dia em que celebro os meus 33 anos, e porque a vida é um milagre que merece ser celebrado com alegria, venham de lá dois hip hip hurrahs bem altos, e siga a festa que os 34 são já amanhã!
E foi com bastante surpresa que me apercebi que este blog já tinha mais de 1000 visualizações...Nunca pensei chegar a esta marca tão rápido, mas é sinal de que gostam do que escrevo, e isso incentiva-me a escrever mais.
Por isso por este ser o último dia em que celebro os meus 33 anos, e porque a vida é um milagre que merece ser celebrado com alegria, venham de lá dois hip hip hurrahs bem altos, e siga a festa que os 34 são já amanhã!
24 de janeiro de 2012
E depois do adeus
Dizer adeus é algo que detesto, porque a palavra soa-me a algo definitivo e assumido.
Eu tive a sorte de conviver o suficiente para dizer que fiquei mais rico com a presença dos meus avós na minha vida…Depois do adeus fica muita coisa boa para recordar.
Adeus avó, e obrigado por teres feito parte da minha odisseia sem fim...
Nunca gostei de usar esta palavra, e é muito raro usá-la para me despedir de alguém. Sempre preferi usar um até breve ou um xau para me despedir, porque dá a sensação (embora por vezes falsa) de que um dia, mais tarde ou mais cedo irei ver e voltar a conviver com essa pessoa.
No entanto, por vezes uso a palavra adeus, algumas vezes faço-o por não querer ver mais essa pessoa, e outras em que sou obrigado a usá-la sem ser essa a minha vontade. Esta semana foi uma dessas raras vezes em que a usei a contragosto, e não me apetecia nada usá-la…
Não há muito a dizer, a vida é mesmo assim... Agora é viver um dia de cada vez, uns dias mais triste, outros mais animado, mas muito mais rico com a passagem dessa pessoa pela nossa vida. Muitas vezes damos importância às coisas supérfluas e superficiais, mas o que realmente importa são as experiências de vida e o que aprendemos por confraternizar uns com os outros. Depois de um adeus é isso que fica.
Eu tive a sorte de conviver o suficiente para dizer que fiquei mais rico com a presença dos meus avós na minha vida…Depois do adeus fica muita coisa boa para recordar.
Adeus avó, e obrigado por teres feito parte da minha odisseia sem fim...
7 de dezembro de 2011
Na corda bamba
Vejo no meu horizonte céu claro e muito sol por um lado, e nuvens negras e tempestade do outro, e o meu caminho a passar entre estas duas realidades, sem poder evitá-lo ou seguir outro caminho com menos extremos.Vejo-me perante estas duas realidades completamente diferentes, como um trapezista a caminhar através de uma corda bamba sem rede, em que não me posso deter ou optar por outro caminho nem falhar nenhum dos passos sob pena de dar passos em falso e deitar tudo a perder, numa altura em que estou totalmente focado em atingir um objectivo, e me vejo perante o desígnio superior de estar presente quando os nossos entes queridos caminham a passos largos rumo ao crepúsculo da vida e enfrentam uma batalha que todos perdemos desde que nascemos.
Não vai ser fácil manter a concentração e o equilíbrio entre duas realidades tão díspares, mas não me resta outra alternativa senão mergulhar de cabeça sem me poder deter a meio nem poder refrear o ritmo dos acontecimentos, e fazer tudo o que puder em todas as frentes, sem abrandar o ímpeto para não deitar tudo a perder nem deixar de apoiar aqueles que me são próximos.
Em última análise, ninguém disse que a vida era justa. As lágrimas devem ser silenciadas e choradas interiormente e as dores suportadas com estoicismo e valentia até ao dia em que caímos definitivamente, porque o mundo é dos bravos, e tudo o que é bom tem um sabor a efémero e breve. Resta-nos viver e não sobreviver, e ir fazendo o melhor que sabemos e podemos.
27 de novembro de 2011
Quando o fado e o sentimento de saudade se encontram fora da nossa pátria (escrito em 27/11/2011)
Hoje é um grande dia para todos os Portugueses, devido ao Fado ser finalmente considerado património imaterial mundial pela UNESCO.
Apesar de como Português me sentir orgulhoso por este facto, na verdade confesso que o fado nunca esteve entre os meus géneros musicais favoritos... Só após muitos anos e uma estadia fora do país começei a apreciar fado embora não o ouça muitas vezes.
Recordo um dia em especial e uma canção, a canção do mar, cantada por Dulce Pontes.
Ouvi-o passado um mês e poucos dias de ter saído de Portugal, rumo a um país e uma realidade completamente diferentes do que conhecera até então, numa festa Portuguesa organizada pelos estudantes Portugueses do Programa Erasmus, numa espécie de garagem com sofás sovados, um balcão improvisado e infiltrações de água nas paredes que servia de bar de Erasmus com o nome de Jazzbina, em Ljubljana, a 4.000 quilómetros de Portugal.
Até então nunca tinha estado tão longe do meu país. As minhas viagens para fora tinham-se resumido a algumas voltas pela Península Ibérica, e nunca por períodos maiores que um mês.
Por entre imagens de Portugal e copos de sangria surgiu esta música. Já a tinha ouvido antes, mais do que uma vez até, mas nesse momento parei. Senti um aperto enorme no coração ao aperceber-me como estava longe de tudo o que até então tinha vivido, do meu país, da minha casa, dos meus familiares e amigos…
Nunca tinha sentido nada assim. Foi nesse dia que finalmente compreendi o verdadeiro significado da palavra saudade, e do enorme sentimento que essa palavra encerra. É um sentimento que não se explica por palavras, apenas quem está longe daquilo que ama o sente e consegue perceber o seu real significado.
Tal como o sentimento de saudade, que dizemos ser uma palavra que apenas encontra uma tradução real na língua Portuguesa, também o fado é parte integrante do nosso património nacional, e a partir de hoje,também do património mundial, o que significa que o nosso planeta passará também a ser um pouco mais Português, ajudando todos os que estão longe da nossa pátria a suportar um pouco melhor o sentimento de saudade.
13 de novembro de 2011
Dificil es quitar un sentimiento que esta bien amarrado al palo del corazon
Ao contrário do que tenho escrito, este não é um texto sobre viagens, nem tão pouco sobre música. Este é um texto que não vai ser tratado, re-escrito e arranjado para que fique bem feito, nem vai levar qualquer imagem. Hoje vou deixar o meu coração falar.
Pela primeira vez em três anos, sinto que é tempo de deixar cair a muralha que ergui sobre mim próprio para me proteger e dizer o que sinto..
Há precisamente três anos atrás, vi partir a pessoa que foi uma das grandes referências da minha vida, o meu avô..
Ao escrever este texto, ainda tenho o mesmo sentimento de vazio que senti neste dia, como se se tivesse aberto um enorme buraco negro que me sugou as emoções e os sentimentos, o mesmo peso no coração e o mesmo sentimento de raiva e e impotência por ter-te visto numa cama de hospital a sofrer e a chamar pelo meu nome e eu nada poder fazer para impedir isso. A única coisa que me dá alguma tranquilidade foi teres falecido na presença dos teus sucessores, e não sozinho e abandonado.
Recordo bem o dia que recebi o telefonema numa tarde de sábado a avisarem-me que se sentia mal e ia para o hospital. Era o dia 8 de Novembro, lembro-me que estava sol nessa tarde, e da enorme aflição que senti porque previ o pior.
Ao chegar ao hospital, senti-me um pouco mais tranquilo, sempre foi um combatente, que aos 80 anos ainda andava nos telhados e fazia muros. Vi-o combalido e fraco, mas estava tranquilo, e isso tranquilizou-me.
No entanto, com o decorrer da semana fui vendo o lento definhar até chegar à fatídica Sexta feira de 14 de Novembro.. Nesse dia ao sair do trabalho tive um estranho pressentimento, e contra tudo decidi ir ao hospital. Sentia que algo não estava bem, e corri, corri como há muito tempo não corria, apenas parando junto à cama, dei a mão e assim foi partindo, aos poucos... Ainda hoje penso que esperou por eu chegar para partir.
Naquele momento apeteceu-me chorar de raiva e isolar-me de todos até acalmar a dor, mas não o fiz porque sabia que não podia, contive e engoli tudo o que senti.
Por fora parecia feito de pedra, sabia que tinha de ser o fiel da balança e o elemento conciliador na família, tinha de ser forte por todos, para que nenhum quebrasse, mas por dentro implodi. Nos dias seguintes senti-me vazio e perdido, sem vontade de lutar. Limitei-me a ver os dias passar, e até que voltasse a reagir levou algum tempo.
Ainda hoje, passados estes anos, tenho o mesmo sentimento de vazio e de perda. Provavelmente é um sentimento que irá acompanhar-me até ao fim, porque por mais anos que passem, nunca vou esquecer o forte de madeira que me fizeste em miúdo para eu brincar aos índios e cowboys, e que ainda hoje guardo religiosamente, nem o degrau a mais nas escadas que fizeste por eu ter caído e esmurrado os joelhos, nem os momentos que passei a brincar e a martelar os dedos na tua oficina, nem as histórias que me contavas que faziam com que me risse como um perdido, nem as vindimas na terra, em que me punhas no lagar a pisar as uvas, nem os passeios que dei em miúdo pela tua mão pela baixa de Lisboa, pelas Caldas, pela Foz do Arelho, nem os almoços em família no Cortiço, nem de te ver a trabalhar na velha estância de madeira perto da Almirante Reis a trabalhar a madeira com o esmero e a paciência de um mestre.
Irei sempre arrepender-me de nunca termos feito a viagem que combinamos quando era pequeno, e que tantas vezes ficamos de combinar e foi ficando sempre para depois, para quando houvesse tempo...Até que não houve mais tempo...
Não sei se existe céu ou inferno, nem se onde quer que esteja o meu avô vai ler o que escrevo. Quero acreditar que está num lugar melhor. Quero acreditar que onde quer que esteja ele continua a guiar os meus passos, e a fazer degraus para eu não cair e esmurrar os joelhos...
Pela primeira vez em três anos, sinto que é tempo de deixar cair a muralha que ergui sobre mim próprio para me proteger e dizer o que sinto..
Há precisamente três anos atrás, vi partir a pessoa que foi uma das grandes referências da minha vida, o meu avô..
Ao escrever este texto, ainda tenho o mesmo sentimento de vazio que senti neste dia, como se se tivesse aberto um enorme buraco negro que me sugou as emoções e os sentimentos, o mesmo peso no coração e o mesmo sentimento de raiva e e impotência por ter-te visto numa cama de hospital a sofrer e a chamar pelo meu nome e eu nada poder fazer para impedir isso. A única coisa que me dá alguma tranquilidade foi teres falecido na presença dos teus sucessores, e não sozinho e abandonado.
Recordo bem o dia que recebi o telefonema numa tarde de sábado a avisarem-me que se sentia mal e ia para o hospital. Era o dia 8 de Novembro, lembro-me que estava sol nessa tarde, e da enorme aflição que senti porque previ o pior.
Ao chegar ao hospital, senti-me um pouco mais tranquilo, sempre foi um combatente, que aos 80 anos ainda andava nos telhados e fazia muros. Vi-o combalido e fraco, mas estava tranquilo, e isso tranquilizou-me.
No entanto, com o decorrer da semana fui vendo o lento definhar até chegar à fatídica Sexta feira de 14 de Novembro.. Nesse dia ao sair do trabalho tive um estranho pressentimento, e contra tudo decidi ir ao hospital. Sentia que algo não estava bem, e corri, corri como há muito tempo não corria, apenas parando junto à cama, dei a mão e assim foi partindo, aos poucos... Ainda hoje penso que esperou por eu chegar para partir.
Naquele momento apeteceu-me chorar de raiva e isolar-me de todos até acalmar a dor, mas não o fiz porque sabia que não podia, contive e engoli tudo o que senti.
Por fora parecia feito de pedra, sabia que tinha de ser o fiel da balança e o elemento conciliador na família, tinha de ser forte por todos, para que nenhum quebrasse, mas por dentro implodi. Nos dias seguintes senti-me vazio e perdido, sem vontade de lutar. Limitei-me a ver os dias passar, e até que voltasse a reagir levou algum tempo.
Ainda hoje, passados estes anos, tenho o mesmo sentimento de vazio e de perda. Provavelmente é um sentimento que irá acompanhar-me até ao fim, porque por mais anos que passem, nunca vou esquecer o forte de madeira que me fizeste em miúdo para eu brincar aos índios e cowboys, e que ainda hoje guardo religiosamente, nem o degrau a mais nas escadas que fizeste por eu ter caído e esmurrado os joelhos, nem os momentos que passei a brincar e a martelar os dedos na tua oficina, nem as histórias que me contavas que faziam com que me risse como um perdido, nem as vindimas na terra, em que me punhas no lagar a pisar as uvas, nem os passeios que dei em miúdo pela tua mão pela baixa de Lisboa, pelas Caldas, pela Foz do Arelho, nem os almoços em família no Cortiço, nem de te ver a trabalhar na velha estância de madeira perto da Almirante Reis a trabalhar a madeira com o esmero e a paciência de um mestre.
Irei sempre arrepender-me de nunca termos feito a viagem que combinamos quando era pequeno, e que tantas vezes ficamos de combinar e foi ficando sempre para depois, para quando houvesse tempo...Até que não houve mais tempo...
Não sei se existe céu ou inferno, nem se onde quer que esteja o meu avô vai ler o que escrevo. Quero acreditar que está num lugar melhor. Quero acreditar que onde quer que esteja ele continua a guiar os meus passos, e a fazer degraus para eu não cair e esmurrar os joelhos...
2 de novembro de 2011
Oblivion
Apenas fecha os olhos, esquece as mágoas do passado, as preocupações do presente e os receios e sonhos de um futuro incerto, e deixa a música fluir livremente pelo teu corpo e alma...
Astor Piazzola através do tango tem o dom de nos fazer esquecer tudo por breves momentos. As mágoas, desilusões, tristezas, alegrias, momentos felizes, tudo fica para trás, apenas o agora interessa, um agora carregado de sentimento e silêncio, fazendo-nos mergulhar no rio do esquecimento (Oblivion)...
Astor Piazzola através do tango tem o dom de nos fazer esquecer tudo por breves momentos. As mágoas, desilusões, tristezas, alegrias, momentos felizes, tudo fica para trás, apenas o agora interessa, um agora carregado de sentimento e silêncio, fazendo-nos mergulhar no rio do esquecimento (Oblivion)...
24 de agosto de 2011
Sarajevo Ljubavi moje (Sarajevo meu amor) - Segunda parte
Após o repouso, saímos da casa para jantar. Depois de ter-me deparado com aquela situação a minha vontade de sair da casa era pouca ou nenhuma, mas acabei por ir porque a fome já apertava. Ao sairmos de casa coincidiu com a hora do pôr-do-sol, e apesar da paisagem de inúmeros cemitérios espalhados pela cidade optei por tentar ignorar essa visão e concentrar-me unicamente nos edifícios que se espraiavam pelo vale.
Sabia pelo que tinha lido que Sarajevo era antes da guerra uma das cidades mais cosmopolitas da ex-Jugoslávia, sendo famosa pela sua tolerância religiosa e cultura, e também por ter recebido os Jogos Olímpicos de Inverno de 1984, e tentei ver o que restava dessa cidade.
Apesar de ainda existirem alguns vestígios de guerra e casas destruídas, a cidade ainda tinha vestígios da sua anterior glória e prestígio, e, ao contrário do que tinha visto durante a tarde, ao por-do-sol não conseguia deixar de achar como era belo todo o cenário que se deparava perante os meus olhos, para meu próprio espanto.
A nossa busca de um local para jantar levou-nos até um pequeno restaurante com um ambiente familiar e despretendioso, que era exactamente aquilo que procurávamos. Após saborearmos um cevapcici e uma baklava, decidimos percorrer as ruas principais da cidade.
Para meu espanto, encontrámos as ruas cheias de movimento e cafés, bares e discotecas abertos, cheias de pessoas a confraternizarem, e de jovens adolescentes desejosos de viverem a vida demasiado depressa. Nesse momento dei por mim a pensar nas imagens de pessoas a fugir dos tiros nessas mesmas ruas, apenas alguns anos atrás. Como era possível aquele milagre suceder?
Tinham-me contado histórias acerca do quotidiano durante esses anos, de pessoas que pelo simples gesto de procurar algo que comer, lenha para se aquecer ou água para beber corriam o risco de acabarem mortas. Contaram-me histórias de pessoas que apenas pelo ruído dos obuses de artilharia a cair sabia que tipo de projéctil era, em que local iria cair e qual o tempo que tinham para fugir de uma morte quase certa. Hoje em dia ainda se pode ver marcas desses bombardeamentos nas ruas da cidade. Essas marcas foram cobertas com cera de velas, sendo conhecidas como as rosas de Sarajevo.
Apenas alguns anos atrás este era o quotidiano daquela mesma cidade que agora via perante os meus olhos vibrante e cheia de vida, a mesma cidade que tinha achado deprimente, angustiante e triste aparecia agora perante os meus olhos transfigurada para algo muito melhor.
Como era possível naquela terra esquecida por Deus as pessoas terem reencontrado a vontade de viver e fazerem de conta que nada se tinha passado naquele local?
Passados minutos deparei-me com um vulto familiar. Era o mesmo homem que algumas horas antes eu tinha visto completamente destroçado por não ter conseguido alugar a casa. Estava de novo na avenida principal, em busca de pessoas de visita à cidade à procura de um local acessível para ficar.
A verdade é que não adianta lamentarmo-nos e ficarmos de braços cruzados e sem esperança à espera que alguém nos salve o dia e a vida. Apenas aqueles que caem e aprendem a levantar-se e nunca perdem a esperança, por muito desesperada que a situação seja, poderão algum dia voltar a viver dias felizes. - Pois é Hugo, por muito que nos lamentemos a verdade é que a vida continua, e temos de nos agarrar a ela para que não nos passe à frente dos olhos, pensei para comigo.
Lembro-me de ler algo acerca da história de Sarajevo e dos dias do cerco à cidade. Na altura a cidade estava completamente cercada pelo exército dos Bósnios-Sérvios, com excepção da parte da cidade que era ocupada pelo aeroporto, que era controlado pela ONU. Como os Bósnios não podiam ter acesso a esta parte da cidade para poder fazer passar mantimentos e outros bens de primeira necessidade, decidiram construir um túnel que passasse por baixo do aeroporto e ligasse a cidade à área sob controlo dos bósnios.
Até aqui nada de extraordinário, no entanto a verdade é que os construtores do túnel não dispunham de técnicos especializados, materiais ou mesmo instrumentos de precisão que lhes permitisse construir o túnel para que os dois lados coincidissem, tendo sido ele todo feito a olho, e sob condições extremamente difíceis. Ainda hoje uma das casas bombardeadas nas quais termina um dos lados do túnel serve de testemunho da extraordinária proeza destes homens, que numa situação de quase desespero e sujeitos a serem sepultados vivos por uma das bombas que diariamente caíam naquela casa usaram o engenho para encontrar um meio de aliviar o fardo dos cidadãos sitiados.Com estes pensamentos voltámos de novo à casa onde pernoitámos naquela noite, e ao chegar ao local não quis entrar logo. Decidi ficar mais um pouco cá fora a apreciar as luzes da cidade naquela noite de céu estrelado. Ao ver aquela cidade vibrante e viva carregada de cicatrizes não pude deixar de pensar em como era bela e única. Sarajevo é de facto uma cidade muito especial, que nos faz passar por um misto de emoções fortes e sentimentos, e no fim de tudo nos renova a esperança e aquece-nos o coração…Pelo menos a mim fez-me sentir dessa maneira.
Passaram seis anos desde esse dia, no entanto o desejo de regressar continua vivo. Quando regressar, irei passear pelas ruas a cantarolar a música dos anos 60 conhecida por todos os Bósnios e pela grande maioria dos que visitaram a cidade, que se chama Sarajevo Ljubavi moje (Sarajevo meu amor)
Até um dia...
Sabia pelo que tinha lido que Sarajevo era antes da guerra uma das cidades mais cosmopolitas da ex-Jugoslávia, sendo famosa pela sua tolerância religiosa e cultura, e também por ter recebido os Jogos Olímpicos de Inverno de 1984, e tentei ver o que restava dessa cidade.
Apesar de ainda existirem alguns vestígios de guerra e casas destruídas, a cidade ainda tinha vestígios da sua anterior glória e prestígio, e, ao contrário do que tinha visto durante a tarde, ao por-do-sol não conseguia deixar de achar como era belo todo o cenário que se deparava perante os meus olhos, para meu próprio espanto.
| O famoso Cevapcici |
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| Uma das famosas rosas de Sarajevo |
Como era possível naquela terra esquecida por Deus as pessoas terem reencontrado a vontade de viver e fazerem de conta que nada se tinha passado naquele local?
Passados minutos deparei-me com um vulto familiar. Era o mesmo homem que algumas horas antes eu tinha visto completamente destroçado por não ter conseguido alugar a casa. Estava de novo na avenida principal, em busca de pessoas de visita à cidade à procura de um local acessível para ficar.
| Uma das entradas do túnel |
De manhã caminhámos novamente pela cidade antes de a abandonarmos em direcção ao nosso destino. Ao passarmos pelo Praça dos pombos e pela fonte que supostamente faz regressar quem beber a sua água, decidi beber essa água três vezes, para ter a certeza que um dia voltaria.
| A praça dos pombos e a fonte |
Até um dia...
Sarajevo Lujbavi moje (Sarajevo meu amor) - Primeira parte
Tenho o hábito de todos os dias ler as notícias e ver os cabeçalhos dos jornais para estar a par do que se vai passando no mundo.
Quando abro as notícias sobre o nosso país, e um pouco à imagem do mundo ultimamente, normalmente são más notícias. Quando tenho tempo costumo ler os comentários às notícias, e o que vejo e leio são lamentos e mais lamentos.
Costuma-se dizer que os lamentos, a par com o sentimento de saudade, o futebol e o fado fazem parte do ADN de todos os Portugueses. Também eu por várias vezes caio no erro de me lamentar acerca do estado do nosso país e mesmo da minha vida, mas tal como todos os Portugueses devemos estar mais preocupados em viver e lutar para melhorar a vida do que em lamentarmo-nos, porque na verdade cruzarmos os braços e lamentarmo-nos não adianta de nada.
Quando me lamento arrependo-me logo a seguir devido a uma das mais extraordinárias lições de vida que recebi, e que por vezes infelizmente me esqueço.
Em 2005, durante uma viagem pela ex-Jugoslávia visitei a cidade de Sarajevo, capital da Bósnia Herzegovina. Antes de visitar a cidade apenas recordava as imagens de guerra que inundaram os noticiários de todo o mundo durante os três anos de cerco à cidade. Recordava nomes como a tristemente célebre avenida dos snipers, o Hotel Holliday Inn, o edifício bombardeado do jornal Oslobodenje e o mercado da cidade, todos eles infelizmente célebres por maus motivos.
Antes de entrar na cidade passei por vários locais e em todos eles vi o espelho de um quotidiano de guerra que aquele país atravessou durante os anos conturbados de guerra civil, mas também vi locais de uma beleza natural capaz de nos fazer sentir pequenos, como o vale do Rio Neretva, o mesmo que passa na fantástica ponte de Mostar, o que me levava a perguntar como era possível ter havido uma guerra num local tão belo. Infelizmente essa é uma pergunta que ficou sem resposta.
Após passar por todos esses locais, finalmente chegamos a Sarajevo, entrando na cidade pela célebre avenida dos snipers, hoje um local repleto de prédios de habitação enormes com marcas de guerra visíveis nas fachadas. Após estacionarmos num dos parques do centro da cidade, decidimos percorrer o centro em busca de um local para dormir. Saravejo é uma cidade marcada por três períodos distintos (Otomano, Austro-húngaro e Jugoslavo), sendo facilmente identificado cada um deles apenas percorrendo a avenida principal em direcção ao centro, que termina na Bascarcija (mercado), que é a zona que mantém a traça Otomana.
Ao percorrer a avenida principal em direcção ao centro, encontrei muitas esplanadas e cafés abertos e algumas pessoas a passear pelas ruas. É uma sensação estranha passar por um local que conhecemos apenas das televisões e no qual vemos em cada canto imagens conhecidas, porém tão diferentes.Ao passar numa dessas ruas um homem interpelou-nos, perguntando num inglês bastante perceptível se estávamos à procura de um sítio para ficar.
Ao início não reparei bem nele porque estava distraído a tirar fotos, mas depois observei-o atentamente. Trazia um fato bege bastante usado, e pelo aspecto diria que se tratava de um homem perto dos 60 anos e de aparência bastante humilde.
Em conversa, contou-nos que tinha cerca de 40 anos, o que me surpreendeu bastante porque aparentava ter muito mais idade. Perguntou-nos também a nossa nacionalidade, e como trazíamos Polacos na nossa comitiva, contou que tinha estado durante algum tempo a trabalhar na Polónia. Também nos contou que desde a guerra que estava desempregado. Como na altura já tinham passado 13 anos desde o início da guerra civil pensei para comigo como era possível alguém estar tanto tempo desempregado e conseguir subsistir.
Como ainda não tínhamos encontrado nenhum sítio para ficar decidimos ver a casa deste homem e pelo caminho fomos conversando. Dessa conversa retive na memória alguns dos diálogos que fomos tendo...
Num dos pontos da Bascarcija, disse-nos:
- Neste cruzamento, num raio de300 metros há uma mesquita, uma sinagoga, uma igreja católica e outra ortodoxa. Durante 500 anos vivemos em paz, foi preciso vir o Milosevic para começarmos a lutar uns contra os outros!
Ainda durante o caminho para a sua casa, uma das nossas colegas de viagem perguntou o preço do alojamento, e ele disse-nos que era 15 euros a cada um. Ela queixou-se que era caro e que esperava que a casa tivesse boas condições, ao que ele respondeu que há 10 anos, durante a guerra, não havia um único edifício com os vidros intactos ou fornecimento de electricidade ou água na cidade. A mensagem foi clara: não esperem luxos por preços simbólicos.
Ao passar por uma fonte numa praça, disse-nos que quem bebesse água dessa fonte ia regressar um dia a Sarajevo. Mais tarde vim a saber que o nome dessa praça era praça dos pombos. Mais adiante falarei dessa praça.
Finalmente chegamos à casa do homem. Era uma casa bastante humilde, mas limpa. Honestamente para mim chegava e bastava, sabia a história daquele sítio e por aquele preço não esperava uma mansão. No entanto, algumas colegas estavam de pé atrás, uma preocupada pela segurança com medo que nos fizessem alguma coisa e outra com o preço que ele nos pediu. Alguns de nós como eu não nos importávamos de ficar, no entanto não íamos separar o grupo, pelo que decidimos não ficar.
Ao dizer-lhe que não íamos ficar reparei numa fotoem particular. Uma foto antiga, desse homem com uma menina. Pelas feições pareceu-me ser filha dele, e lembrei-me de em conversa ele dizer que tinha uma namorada. Passou-me pelo pensamento que aquele homem podia ter perdido a família durante aqueles dias de tragédia, o que apesar de não ter certeza absoluta do que pensei fazia muito sentido pelo aspecto envelhecido e trágico daquela pobre alma.
Enquanto lhe comunicávamos a decisão de que não íamos ficar, reparei na mudança de feições do pobre homem. No entanto o pior foi ao sair da sua casa, tendo-me virado para trás, e vi-o sentado numa cadeira a olhar para a porta pela qual nós passávamos. Nunca tinha visto ninguém com um olhar tão profundo de tristeza, desespero, derrota e resignação. Era como se tivessem aberto um enorme buraco negro na sua alma.
Ao ver tudo aquilo senti-me muito mal comigo próprio porque sabia que provavelmente aquele dinheiro ia garantir que ele subsistisse durante algum tempo.
Do nosso grupo houve quem sentisse o mesmo:
M. – Pessoal, estou a sentir-me muito mal comigo próprio, temos de ajudar de alguma maneira este homem.
M. – Sr, como foi tão atencioso connosco e nos mostrou o centro de Sarajevo, gostávamos de o recompensar pelo seu tempo e dar-lhe este dinheiro.
A reacção dele foi a seguinte:
- Agradeço a oferta mas sou um cavalheiro e por isso não posso aceitar.
Antes de sair ainda nos mostrou um caderno com algumas declarações de pessoas que ficaram na casa dele, a dizer que era uma excelente pessoa e que gostaram muito de lá ter estado, o que fez com que me sentisse ainda mais triste.
Quando nos juntamos aos nossos colegas, uma delas perguntou-me se tínhamos ido regatear o preço. Ao ouvir isto quase explodi de raiva, mas em vez disso apenas me saiu uma frase de forma maquinal e fria: Não regateio com pessoas desesperadas!
Depois deste episódio fomos buscar a carrinha para procurar um dos endereços que anotei antes da viagem de possíveis locais para ficar. Disse-lhes que há 10 anos aquela cidade estava completamente destruída e que não esperassem encontrar as condições que encontrariamem casa. Era óbvio que estava a recriminar quem se tinha recusado a ficar lá, estava furioso com o que tinha acontecido, sobretudo com a falta de sensibilidade da nossa colega que me perguntou se tinha regressado para regatear.
Por fim, acabamos por descobrir um sítio para ficar com boas condições, e o ambiente começou a desanuviar. O local onde ficamos ficava sobranceiro à cidade, e de lá podíamos ver toda a cidade espraiada pelo vale do rio Miljacka. Nessa altura apercebi-me da enorme quantidade de sepulturas que rodeavam Sarajevo. Já tinha visto antes as fotos da cidade, mas não deixa de ser chocante visto ao vivo e a cores... Aproveitámos para descansar um pouco até à hora de jantar, mas pensava para comigo que queria sair dali o mais rapidamente possível, o olhar desesperado daquele homem juntamente com a visão que tinha acabado de ver e o que sabia sobre a cidade estavam a deixar-me com um sentimento misto de tristeza, culpa e revolta.
Lembrei-me de uma foto que tinha visto há muitos anos durante a guerra, uma imagem a preto e branco, que revelava uma verdade indesmentível, fria e desprovida de sentimento, na qual aparecia uma parede esburacada por estilhaços e buracos de bala, com uma frase a spray: Welcome to hell.
Quando abro as notícias sobre o nosso país, e um pouco à imagem do mundo ultimamente, normalmente são más notícias. Quando tenho tempo costumo ler os comentários às notícias, e o que vejo e leio são lamentos e mais lamentos.
Costuma-se dizer que os lamentos, a par com o sentimento de saudade, o futebol e o fado fazem parte do ADN de todos os Portugueses. Também eu por várias vezes caio no erro de me lamentar acerca do estado do nosso país e mesmo da minha vida, mas tal como todos os Portugueses devemos estar mais preocupados em viver e lutar para melhorar a vida do que em lamentarmo-nos, porque na verdade cruzarmos os braços e lamentarmo-nos não adianta de nada.
Quando me lamento arrependo-me logo a seguir devido a uma das mais extraordinárias lições de vida que recebi, e que por vezes infelizmente me esqueço.
Em 2005, durante uma viagem pela ex-Jugoslávia visitei a cidade de Sarajevo, capital da Bósnia Herzegovina. Antes de visitar a cidade apenas recordava as imagens de guerra que inundaram os noticiários de todo o mundo durante os três anos de cerco à cidade. Recordava nomes como a tristemente célebre avenida dos snipers, o Hotel Holliday Inn, o edifício bombardeado do jornal Oslobodenje e o mercado da cidade, todos eles infelizmente célebres por maus motivos.
| Avenida dos snipers |
| Avenida principal |
| Hotel destruído no centro da cidade |
Ao início não reparei bem nele porque estava distraído a tirar fotos, mas depois observei-o atentamente. Trazia um fato bege bastante usado, e pelo aspecto diria que se tratava de um homem perto dos 60 anos e de aparência bastante humilde.
| A Bascarcija |
Como ainda não tínhamos encontrado nenhum sítio para ficar decidimos ver a casa deste homem e pelo caminho fomos conversando. Dessa conversa retive na memória alguns dos diálogos que fomos tendo...
Num dos pontos da Bascarcija, disse-nos:
- Neste cruzamento, num raio de
Ainda durante o caminho para a sua casa, uma das nossas colegas de viagem perguntou o preço do alojamento, e ele disse-nos que era 15 euros a cada um. Ela queixou-se que era caro e que esperava que a casa tivesse boas condições, ao que ele respondeu que há 10 anos, durante a guerra, não havia um único edifício com os vidros intactos ou fornecimento de electricidade ou água na cidade. A mensagem foi clara: não esperem luxos por preços simbólicos.
Ao passar por uma fonte numa praça, disse-nos que quem bebesse água dessa fonte ia regressar um dia a Sarajevo. Mais tarde vim a saber que o nome dessa praça era praça dos pombos. Mais adiante falarei dessa praça.
| Hotel destruído perto da Avenida dos Snipers |
Ao dizer-lhe que não íamos ficar reparei numa foto
| Edifício do Parlamento |
Ao ver tudo aquilo senti-me muito mal comigo próprio porque sabia que provavelmente aquele dinheiro ia garantir que ele subsistisse durante algum tempo.
Do nosso grupo houve quem sentisse o mesmo:
M. – Pessoal, estou a sentir-me muito mal comigo próprio, temos de ajudar de alguma maneira este homem.
Hugo – Sim, concordo contigo M., também me sinto pessimamente.
M. – Vamos oferecer-lhe 20 euros e dizer-lhe que é como agradecimento pela visita guiada pelas ruas que fez.
A. – Sim, vamos.
Ao entrar novamente pela porta, apesar de notar que ainda estava atordoado ele tinha em parte recuperado o ânimo e estava ao telefone. Ao terminar de falar ao telefone, o M. começou a falar com ele.M. – Vamos oferecer-lhe 20 euros e dizer-lhe que é como agradecimento pela visita guiada pelas ruas que fez.
A. – Sim, vamos.
M. – Sr, como foi tão atencioso connosco e nos mostrou o centro de Sarajevo, gostávamos de o recompensar pelo seu tempo e dar-lhe este dinheiro.
A reacção dele foi a seguinte:
- Agradeço a oferta mas sou um cavalheiro e por isso não posso aceitar.
Antes de sair ainda nos mostrou um caderno com algumas declarações de pessoas que ficaram na casa dele, a dizer que era uma excelente pessoa e que gostaram muito de lá ter estado, o que fez com que me sentisse ainda mais triste.
Quando nos juntamos aos nossos colegas, uma delas perguntou-me se tínhamos ido regatear o preço. Ao ouvir isto quase explodi de raiva, mas em vez disso apenas me saiu uma frase de forma maquinal e fria: Não regateio com pessoas desesperadas!
Depois deste episódio fomos buscar a carrinha para procurar um dos endereços que anotei antes da viagem de possíveis locais para ficar. Disse-lhes que há 10 anos aquela cidade estava completamente destruída e que não esperassem encontrar as condições que encontrariam
Lembrei-me de uma foto que tinha visto há muitos anos durante a guerra, uma imagem a preto e branco, que revelava uma verdade indesmentível, fria e desprovida de sentimento, na qual aparecia uma parede esburacada por estilhaços e buracos de bala, com uma frase a spray: Welcome to hell.
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