Pesquisar neste blogue

11 de julho de 2011

Scar tissue

Durante a minha vida tive vários períodos bastante atribulados, em que as incertezas e as dúvidas eram mais que muitas e me sentia como um barco sem leme nem velas, vogando à deriva  num imenso oceano de dúvidas. Nesses períodos valeu-me uma grande dose de tenacidade, paciência, teimosia, orgulho e sobretudo, dos bons amigos que sempre tive e me apoiaram.



Esta é uma história sobre uma dessas amizades da idade parva da adolescência, em que as dúvidas são grandes e em que temos uma vontade enorme de mudar o mundo, desafiar as convenções, de conhecer, explorar e gozar a vida, mas sobretudo, é a idade em que é definido aquilo que seremos como adultos, e em que as verdadeiras amizades ficam e outras menos verdadeiras acabam.



Nesse período tive o apoio de poucos mas bons amigos, daqueles que nos acompanham desde os tempos do preparatório e com os quais passamos os anos da adolescência e com os quais partilhamos memórias de momentos de companheirismo, amizade e apoio nas horas menos boas.
Dos muitos amigos desse tempo ficaram o Lopes, o Tendeiro, o Caliban, o Carrasco, o Monteiro, o Pereira, o Cangalhas e o Seco. Todos tínhamos em comum o facto de termos andado na mesma escola, alguns desde o preparatório e outros que vim a conhecer apenas no secundário. Não éramos os mais famosos da escola, nem os mais inteligentes (exceptuando o Monteiro). Éramos tipos normais como tantos outros.
Desse tempo ficou muita coisa na memória, mas o que mais recordo foi as idas em grupo à praia da Fonte da Telha, Portinho da Arrábida e ao Vimeiro no velho e lendário Rover 400 do Tendeiro e no Punto do Caliban e as passagens de ano em casa do Tendeiro. Foram momentos bem passados que me deram alento para enfrentar um período complicado.
No entanto em 1999 tudo mudou. Venci as duras batalhas que tinha pela frente e todo um mundo de oportunidades e experiências abriu-se de repente na minha vida, fazendo com que a minha vida desse uma volta de 180 graus.

O facto de entretanto ter mudado de cidade fez com que fosse perdendo o contacto aos poucos com esse grupo, mas de vez em quando nos fins-de-semana ou nas férias ainda nos encontrávamos para manter contacto, até que em Dezembro de 2000 recebi a triste notícia que o seco estava doente.

Nunca tinha lidado com uma situação destas, por isso quando falei com ele nem sabia o que dizer. Apenas consegui dizer que estava sem palavras e que podia contar com a minha amizade. Queria dizer-lhe muito mais, mas infelizmente não encontrei as palavras certas…
Apesar de saber que era grave nunca me passou pela cabeça que ele não ia dar a volta por cima, por isso fui deixando passar os dias e semanas, até que…


No dia 11 de Julho de 2001 à noite estava na biblioteca da Universidade a estudar para um exame. A minha concentração nunca foi muito boa, mas nesse dia estava totalmente desorientado e não conseguia perceber porquê.
Entretanto recebi um sms, e quando fui ver o que era eis que recebi a triste notícia que o nosso amigo tinha partido. Foi um choque enorme para mim porque não estava à espera, sempre acreditei que ele ia dar a volta por cima, mas infelizmente tinha perdido um amigo…
Ainda hoje me culpabilizo porque devia ter estado mais presente quando ele precisou dos amigos, mas nunca previ que as coisas levassem o rumo que levaram. Sempre previ outro rumo e uma grande vitória na dura batalha pela vida.

Podia e devia ter estado mais presente.

Hoje passam 10 anos desde esse triste dia, e tenho-me lembrado desses tempos que trazem memórias tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas, e apesar de ser uma data triste, ficou muita coisa boa desse tempo, mas uma das coisas que mais recordo é de 1999, num certo dia de Agosto, em que viajávamos em direcção ao Portinho para mais um dia de praia e Voleyball. Na rádio tocava scar tissue dos red hot chilli peppers. Éramos jovens, amigos e todos tínhamos um futuro radiante pela frente..




Alguns cumpriram-no, outros ficaram aquém das expectativas criadas, e outros simplesmente não puderam alcançar o zénite da vida por motivos maiores que a própria vida, mas todos temos uma história de amizade verdadeira para contar, e nunca esqueceremos os bons momentos passados.


Seco, onde quer que estejas, estarás sempre presente na minha memória. Um grande abraço amigo...

9 de junho de 2011

crónicas da aldeia - Uma pequena grande lição

Em miúdo, apesar de ser uma peste de primeira, também tinha momentos em que era menos travesso e conseguia ser mais querido...
Um dos hábitos que tinha nesse tempo era o de apanhar flores por tudo o que fosse campo, canteiros e até nos jardins dos vizinhos para oferecer à minha mãe, quase todos os dias...Num desses dias decidi apanhar as flores que estavam num dos canteiros da casa, e lá fui eu todo contente oferece-las à minha mãe.
A resposta da minha mãe não podia ser mais contundente…

- Hugo, então tu foste arrancar as ervilhas ao teu pai!???

Moral da história: As boas intenções por si só não enchem a barriga de ervilhas…

7 de junho de 2011

Crónicas da terra - A tia do pão com tulicreme

Como todos os miúdos da minha geração, também eu passei os verões (e vivi durante algum tempo) na “terra”, que no meu caso é uma aldeia algures entre a Serra dos Candeeiros e o Oceano Atlântico.
Dessa aldeia recordo muitas coisas que fizeram parte da minha infância, e que por boas ou más razões ficaram gravadas na memória, como quando a luz eléctrica pública foi instalada e finalmente a aldeia saiu da penumbra característica assim que o sol se punha, de ter caído e esfolado os joelhos e o queixo nos degraus que davam acesso à casa do meu avô, o que fez com que ele nos dias seguintes decidisse rapidamente acrescentar um degrau para que não voltasse a cair, dos longos passeios pelos campos cobertos de vinhas e árvores de fruto, de apanhar amoras no vizinho do lado, das vindimas em família quando nos juntávamos para apanhar as uvas e as pisávamos no lagar, das muitas idas à minha praia de infância, dos passeios de carro pela Serra dos Candeeiros e pelas redondezas, do primeiro dia de escola, dos inevitáveis piolhos, do primeiro grupo de amigos verdadeiros (e dos quais fui inevitavelmente perdendo o rasto até não sobrar nenhum) e de uma das minhas tias (chamemos-lhe a tia do pão com tulicreme).
De todas as lembranças de infância, a tia do pão com tulicreme é uma das mais agradáveis que tenho J
A tia do pão com tulicreme sempre me adorou. Porquê não sei, porque honestamente eu era uma peste em pequeno que nunca parava quieto e estava sempre a cair no chão de tão rápido que corria. Era o que se chamava ter mais vontade de correr do que força nas pernas, já que era um magricela, por isso andava grande parte desse tempo com os joelhos esfolados e cheios de mercúrio e pensos.




Volta e meia punha a família (e a terra) em alvoroço com as minhas tropelias. Ainda me lembro de quando decidi encher de pedras o depósito de combustível da mota de um dos meus tios, ou de quando decidi que havia de ir para casa a meio de um piquenique e pus os meus pais e os amigos à minha procura por toda a parte, enquanto eu estava tranquilamente a jogar jogos de tabuleiro em casa com a minha companhia de “fuga” (nunca acreditaram que chegasse a casa, mas como tinha dito a verdade livrei-me de levar uma surra, o mesmo já não se pode dizer da minha companhia desse dia…ainda hoje sinto remorsos por ter sido o responsável) ou ainda de quando perdi os óculos que detestava usar ao pé de uma fonte e tiveram de despejar a água dessa fonte para procurá-los lá dentro, e no fim não os encontraram. Felizmente por uns tempos não usei óculos, mas só até à próxima visita ao oftalmologista :S
Apesar de todas as minhas tropelias e de por vezes ficar de castigo, a minha tia tinha sempre um sorriso compreensivo e uma palavra amiga.
Depois de um dia de tropelias, lá ia eu tocar à campainha para ter com o meu primo, e ela recebia-me sempre com um sorriso, uma palavra amiga, e uma sandes de pão com tulicreme acompanhada de um refresco. Escusado será de dizer que volta e meia lá ia eu ver os meus tios e o meu primo…e o pão com tulicreme. Havia que juntar o útil ao agradável…


Muitas coisas mudaram desde essa altura…Deixei de ser magricela, de usar óculos tamanho xxl, de ter os joelhos esfolados e cobertos com mercurio e de fazer tropelias, entre outras coisas. A “terra” também mudou graças ao progresso, e embora os tempos tenham trazido coisas que antes não tinha, está cada vez mais vazia da alegria e do colorido que recordo na minha infância. Na velha escola primária onde aprendi a ler, escrever e contar as lições dadas tantas vezes pelos professores nas salas de aula terminaram, os quadros passaram a estar vazios de palavras, letras e números, as crianças já não brincam no recreio, e grande parte dos campos já não estão cultivados.
Hoje em dia a minha tia já não me dá pão com tulicreme (embora quisesse duvido que o encontrasse à venda) e já tem dificuldade em se deslocar por estar a avançar para o crepúsculo da vida.
 No entanto continua a receber-me com o mesmo sorriso e o mesmo afecto de sempre. Felizmente ainda há coisas que nunca mudam.

8 de março de 2011

Dia da mulher

Posso orgulhar-me de dizer que ao longo dos anos o destino ou o puro acaso tem-me feito conhecer grandes mulheres.

Infelizmente as várias circunstâncias da vida fizeram com que algumas abandonassem o convívio do dia-a-dia, no entanto o tempo não apagou a lembrança nem o sentimento de admiração que tenho por todas as mulheres que trouxeram coisas boas à minha vida, seja aquelas com quem passamos bons momentos de amizade, viagens de grupo, momentos de stress diário no trabalho, momentos de intimidade a dois, ou com quem simplesmente partilhamos aquela pausa para café e um conselho amigo de que por vezes tanto precisamos.

E por isso, quero dizer a todas vós que a vossa presença, mesmo que breve, me trouxe alento, alegria, amizade, companheirismo e amor, e me fez crescer como homem. 
Dedico este post e esta música a todas vós.


24 de fevereiro de 2011

Pai, irmão, amigo para a vida

Hoje é dia de aniversário do meu pai . Já lá vão 59 anos…Apesar de não ser dia do pai, não podia deixar passar este aniversário em branco e fazer uma pequena homenagem.
Não é fácil para mim falar do meu pai, penso que não o é para nenhum filho. Há sempre demasiado para dizer e nem sempre se consegue dizer tudo. Posso dizer que sou um filho orgulhoso de um grande pai, e que o meu pai é o meu herói.

Desde pequeno sempre o adorei, a ponto de dizer que o meu pai é um dos grandes amores da minha vida. De pequeno recordo as brincadeiras, a ida para o infantário pela sua mão, as paragens para comer o pastel de  nata ou a passagem pela loja do macacão, que faziam parte da rotina diária a caminho de mais um dia.

Também recordo o período da tua ausência semanal, em que esperava todas as sextas-feiras à noite ansiosamente pelo nosso velho mini que o trazia de volta para nós, dos acampamentos na Foz do Arelho e as pescarias ao pôr-do-sol que tanto gostava de ir, ou me pegar ao colo para conduzir o mini, mesmo que fosse a fingir, e da primeira vez que me levou a ver a bola, e que teve um efeito contrário ao que ele pretendia porque acabei por começar a gostar do Belenenses.
Nessa altura todos os momentos eram poucos para estar com ele.

Numa fase posterior recordo a infinita paciência para me explicar a matemática, mesmo que estivesse distraído com outras coisas sem jeito, e do apoio incansável que me deu quando já poucos acreditavam nas minhas capacidades (por vezes até eu próprio). Ele nunca desistiu de mim!
E graças ao apoio dele venci e superei todas as duras provas a que fui submetido. Nesses anos aprendi com ele a mais importante de todas as lições de vida, a de que por mais difícil que esteja a situação, nunca se deve baixar os braços até alcançar o que queremos.

Superar esses momentos fizeram-me chegar onde cheguei hoje. Também recordo de como decidiu apoiar-me quando me aventurei pela primeira vez fora do país, para um país completamente diferente durante meio ano, que se veio a converter em um ano, e mesmo que estivesse contra a minha decisão de ir decidiu não me cortar as asas, nem de quando me amparou a queda e me apoiou mais uma vez… Provavelmente ia conseguir superar a prova de fogo sozinho porque estava determinado a isso, mas o seu apoio foi a âncora de estabilidade que necessitava para navegar no meio de um oceano de tanta incerteza.

Pai, apesar de por vezes chocarmos, e de por vezes me fechar e não dizer o que sinto e de nem sempre ter tempo para te ouvir, quero que saibas que não há um dia em que não pense em ti, nem que não agradeça tudo o que tens feito por mim. Tudo o que fui, sou e serei devo-o a ti.
Parabéns meu pai, irmão e amigo para a vida.

23 de fevereiro de 2011

Homenagem singela a um grande músico

Não podia deixar passar o dia de hoje sem prestar a minha homenagem a um dos melhores músicos que Portugal já conheceu, o grande Zeca Afonso. Lembro-me do dia em que partiu, era um dia chuvoso. Apesar de na altura apenas me interessar por Ministars e Onda Choc, lembro-me do choque dos meus pais em saberem que o Zeca tinha falecido. Pasados anos, durante o período da adolescência, e depois de pelo meio ouvir Nirvana, Guns, Doors, Pearl Jam e outros que marcaram os noventa, comecei a ouvir Zeca Afonso, e apesar de não ser bem a minha onda da altura gostei.


Entre muitas músicas, seleccionei esta, que é uma das minhas favoritas…

17 de fevereiro de 2011

Que nunca caiam as pontes entre nós II

“Se Deus abandonou esta infeliz cidade à beira do Drina, com certeza vai abandonar todo o mundo e tudo o que existe debaixo dos céus. E esta devastação não há-de durar para sempre (…) Tudo pode acontecer, menos uma coisa: Nunca vão desaparecer por inteiro e para sempre da face da terra aqueles homens grandes e sábios, todas aquelas almas nobres que constroem obras duradouras para a glória de Deus, para tornar o mundo mais belo e a vida humana mais fácil. Porque se eles desaparecessem, isso significaria que o amor de Deus se tinha extinguido deste mundo. Isso nunca podia ser”
Ivo Andric, A ponte sobre o Drina

Apesar da cidade estar reduzida a escombros, a destruição daquela ponte foi um golpe mortal para todos os que nela habitavam e amavam o que era belo, os mesmos para quem a ponte era muito mais que um mero local de passagem, e onde até à pouco tempo tantas horas tinham passado. Aquilo que os unia como uma comunidade, jazia agora nas águas turvas em que o belo rio que outrora era esmeralda se converteu...Tinha sido um ataque sem outra intenção que não destruir o que é belo e matar a memória colectiva de uma cidade outrora unida.

Nesse mesmo dia, a mais de 4.000 kms de distância, naquele que era suposto ser mais um dia de escola com a mesma rotina de sempre, vi no noticiário as imagens da ponte a ser destruída. Nunca tinha visto nada assim…As imagens  deixaram-me triste, apesar de nunca ter ouvido falar na ponte, e muito menos em Mostar, e de todo aquele pesadelo me parecer demasiado longínquo.
Na altura nunca imaginei que um dia ia estar naquela mesma cidade.

Passados 11 anos, durante uma viagem pelos Balcãs, paramos em Mostar. À medida que percorria as ruas, vi ainda muita da destruição que fez parte do quotidiano desta cidade durante 4 anos. É um choque atravessar uma cidade destruída quando estamos habituados à nossa zona de conforto, parecendo que entramos na twilight zone.
Durante uma visita a uma das mesquitas da cidade, subimos ao minarete para apreciar a vista sobre a cidade, e eis que entre os edifícios, surge a bela ponte reconstruída. Assim que a vi foi amor à primeira vista, e não descansei enquanto não a atravessei e parei num dos bares a beber chá, enquanto contemplava a bela ponte sobre o rio que corria suave e imperturbável. Havia algo naquela ponte que me fascinava e me fazia olhar apenas para ela. Queria guardar aquele momento na minha memória, e saboreá-lo por muitos e bons anos. Naquele dia apercebi-me que a beleza e a bondade triunfaram sobre o ódio e o desejo de separar o que a ponte tinha unido.

Ao deixar Mostar, e apesar das cicatrizes que teimavam em estar abertas, espalhadas por toda a cidade, sentia-me feliz, porque o belo rio Esmeralda corre mais uma vez sobre o arco-íris que sobe em direcção ao céu…