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13 de novembro de 2011

Dificil es quitar un sentimiento que esta bien amarrado al palo del corazon

Ao contrário do que tenho escrito, este não é um texto sobre viagens, nem tão pouco sobre música. Este é um texto que não vai ser tratado, re-escrito e arranjado para que fique bem feito, nem vai levar qualquer imagem. Hoje vou deixar o meu coração falar.
Pela primeira vez em três anos, sinto que é tempo de deixar cair a muralha que ergui sobre mim próprio para me proteger e dizer o que sinto..


Há precisamente três anos atrás, vi partir a pessoa que foi uma das grandes referências da minha vida, o meu avô..
Ao escrever este texto, ainda tenho o mesmo sentimento de vazio que senti neste dia, como se se tivesse aberto um enorme buraco negro que me sugou as emoções e os sentimentos, o mesmo peso no coração e o mesmo sentimento de raiva e e impotência por ter-te visto numa cama de hospital a sofrer e a chamar pelo meu nome e eu nada poder fazer para impedir isso. A única coisa que me dá alguma tranquilidade foi teres falecido na presença dos teus sucessores, e não sozinho e abandonado.

Recordo bem o dia que recebi o telefonema numa tarde de sábado a avisarem-me que se sentia mal e ia para o hospital. Era o dia 8 de Novembro, lembro-me que estava sol nessa tarde, e da enorme aflição que senti porque previ o pior.
Ao chegar ao hospital, senti-me um pouco mais tranquilo, sempre foi um combatente, que aos 80 anos ainda andava nos telhados e fazia muros. Vi-o combalido e fraco, mas estava tranquilo, e isso tranquilizou-me.

No entanto, com o decorrer da semana fui vendo o lento definhar até chegar à fatídica Sexta feira de 14 de Novembro.. Nesse dia ao sair do trabalho tive um estranho pressentimento, e contra tudo decidi ir ao hospital. Sentia que algo não estava bem, e corri, corri como há muito tempo não corria, apenas parando junto à cama, dei a mão e assim foi partindo, aos poucos... Ainda hoje penso que esperou por eu chegar para partir.
Naquele momento apeteceu-me chorar de raiva e isolar-me de todos até acalmar a dor, mas não o fiz porque sabia que não podia, contive e engoli tudo o que senti.

Por fora parecia feito de pedra, sabia que tinha de ser o fiel da balança e o elemento conciliador na família, tinha de ser forte por todos, para que nenhum quebrasse, mas por dentro implodi. Nos dias seguintes senti-me vazio e perdido, sem vontade de lutar. Limitei-me a ver os dias passar, e até que voltasse a reagir levou algum tempo.

Ainda hoje, passados estes anos, tenho o mesmo sentimento de vazio e de perda. Provavelmente é um sentimento que irá acompanhar-me até ao fim, porque por mais anos que passem, nunca vou esquecer o forte de madeira que me fizeste em miúdo para eu brincar aos índios e cowboys, e que ainda hoje guardo religiosamente, nem o degrau a mais nas escadas que fizeste por eu ter caído e esmurrado os joelhos, nem os momentos que passei a brincar e a martelar os dedos na tua oficina, nem as histórias que me contavas que faziam com que me risse como um perdido, nem as vindimas na terra, em que me punhas no lagar a pisar as uvas, nem os passeios que dei em miúdo pela tua mão pela baixa de Lisboa, pelas Caldas, pela Foz do Arelho, nem os almoços em família no Cortiço, nem de te ver a trabalhar na velha estância de madeira perto da Almirante Reis a trabalhar a madeira com o esmero e a paciência de um mestre.

Irei sempre arrepender-me de nunca termos feito a viagem que combinamos quando era pequeno, e que tantas vezes ficamos de combinar e foi ficando sempre para depois, para quando houvesse tempo...Até que não houve mais tempo...

Não sei se existe céu ou inferno, nem se onde quer que esteja o meu avô vai ler o que escrevo. Quero acreditar que está num lugar melhor. Quero acreditar que onde quer que esteja ele continua a guiar os meus passos, e a fazer degraus para eu não cair e esmurrar os joelhos...

2 de novembro de 2011

Oblivion

Apenas fecha os olhos, esquece as mágoas do passado, as preocupações do presente e os receios e sonhos de um futuro incerto, e deixa a música fluir livremente pelo teu corpo e alma...

Astor Piazzola através do tango tem o dom de nos fazer esquecer tudo por breves momentos. As mágoas, desilusões, tristezas, alegrias, momentos felizes, tudo fica para trás, apenas o agora interessa, um agora carregado de sentimento e silêncio, fazendo-nos mergulhar no rio do esquecimento (Oblivion)...

24 de agosto de 2011

Sarajevo Ljubavi moje (Sarajevo meu amor) - Segunda parte

Após o repouso, saímos da casa para jantar. Depois de ter-me deparado com aquela situação a minha vontade de sair da casa era pouca ou nenhuma, mas acabei por ir porque a fome já apertava. Ao sairmos de casa coincidiu com a hora do pôr-do-sol, e apesar da paisagem de inúmeros cemitérios espalhados pela cidade optei por tentar ignorar essa visão e concentrar-me unicamente nos edifícios que se espraiavam pelo vale.

Sabia pelo que tinha lido que Sarajevo era antes da guerra uma das cidades mais cosmopolitas da ex-Jugoslávia, sendo famosa pela sua tolerância religiosa e cultura, e também por ter recebido os Jogos Olímpicos de Inverno de 1984, e tentei ver o que restava dessa cidade.
 Apesar de ainda existirem alguns vestígios de guerra e casas destruídas, a cidade ainda tinha vestígios da sua anterior glória e prestígio, e, ao contrário do que tinha visto durante a tarde, ao por-do-sol não conseguia deixar de achar como era belo todo o cenário que se deparava perante os meus olhos, para meu próprio espanto.



A nossa busca de um local para jantar levou-nos até um pequeno restaurante com um ambiente familiar e despretendioso, que era exactamente aquilo que procurávamos. Após saborearmos um cevapcici e uma baklava, decidimos percorrer as ruas principais da cidade.

O famoso Cevapcici
Para meu espanto, encontrámos as ruas cheias de movimento e cafés, bares e discotecas abertos, cheias de pessoas a confraternizarem, e de jovens adolescentes desejosos de viverem a vida demasiado depressa. Nesse momento dei por mim a pensar nas imagens de pessoas a fugir dos tiros nessas mesmas ruas, apenas alguns anos atrás. Como era possível aquele milagre suceder? 



Uma das famosas rosas de Sarajevo
Tinham-me contado histórias acerca do quotidiano durante esses anos, de pessoas que pelo simples gesto de procurar algo que comer, lenha para se aquecer ou água para beber corriam o risco de acabarem mortas. Contaram-me histórias de pessoas que apenas pelo ruído dos obuses de artilharia a cair sabia que tipo de projéctil era, em que local iria cair e qual o tempo que tinham para fugir de uma morte quase certa. Hoje em dia ainda se pode ver marcas desses bombardeamentos nas ruas da cidade. Essas marcas foram cobertas com cera de velas, sendo conhecidas como as rosas de Sarajevo.

Apenas alguns anos atrás este era o quotidiano daquela mesma cidade que agora via perante os meus olhos vibrante e cheia de vida, a mesma cidade que tinha achado deprimente, angustiante e triste aparecia agora perante os meus olhos transfigurada para algo muito melhor.
Como era possível naquela terra esquecida por Deus as pessoas terem reencontrado a vontade de viver e fazerem de conta que nada se tinha passado naquele local?

Passados minutos deparei-me com um vulto familiar. Era o mesmo homem que algumas horas antes eu tinha visto completamente destroçado por não ter conseguido alugar a casa. Estava de novo na avenida principal, em busca de pessoas de visita à cidade à procura de um local acessível para ficar.

A verdade é que não adianta lamentarmo-nos e ficarmos de braços cruzados e sem esperança à espera que alguém nos salve o dia e a vida. Apenas aqueles que caem e aprendem a levantar-se e nunca perdem a esperança, por muito desesperada que a situação seja, poderão algum dia voltar a viver dias felizes.
- Pois é Hugo, por muito que nos lamentemos a verdade é que a vida continua, e temos de nos agarrar a ela para que não nos passe à frente dos olhos, pensei para comigo.



Uma das entradas do túnel
Lembro-me de ler algo acerca da história de Sarajevo e dos dias do cerco à cidade. Na altura a cidade estava completamente cercada pelo exército dos Bósnios-Sérvios, com excepção da parte da cidade que era ocupada pelo aeroporto, que era controlado pela ONU. Como os Bósnios não podiam ter acesso a esta parte da cidade para poder fazer passar mantimentos e outros bens de primeira necessidade, decidiram construir um túnel que passasse por baixo do aeroporto e ligasse a cidade à área sob controlo dos bósnios.

Até aqui nada de extraordinário, no entanto a verdade é que os construtores do túnel não dispunham de técnicos especializados, materiais ou mesmo instrumentos de precisão que lhes permitisse construir o túnel para que os dois lados coincidissem, tendo sido ele todo feito a olho, e sob condições extremamente difíceis. Ainda hoje uma das casas bombardeadas nas quais termina um dos lados do túnel serve de testemunho da extraordinária proeza destes homens, que numa situação de quase desespero e sujeitos a serem sepultados vivos por uma das bombas que diariamente caíam naquela casa usaram o engenho para encontrar um meio de aliviar o fardo dos cidadãos sitiados.
Com estes pensamentos voltámos de novo à casa onde pernoitámos naquela noite, e ao chegar ao local não quis entrar logo. Decidi ficar mais um pouco cá fora a apreciar as luzes da cidade naquela noite de céu estrelado. Ao ver aquela cidade vibrante e viva carregada de cicatrizes não pude deixar de pensar em como era bela e única. Sarajevo é de facto uma cidade muito especial, que nos faz passar por um misto de emoções fortes e sentimentos, e no fim de tudo nos renova a esperança e aquece-nos o coração…Pelo menos a mim fez-me sentir dessa maneira.

De manhã caminhámos novamente pela cidade antes de a abandonarmos em direcção ao nosso destino. Ao passarmos pelo Praça dos pombos e pela fonte que supostamente faz regressar quem beber a sua água, decidi beber essa água três vezes, para ter a certeza que um dia voltaria.
A praça dos pombos e a fonte
Passaram seis anos desde esse dia, no entanto o desejo de regressar continua vivo. Quando regressar, irei passear pelas ruas a cantarolar a música dos anos 60 conhecida por todos os Bósnios e pela grande maioria dos que visitaram a cidade, que se chama Sarajevo Ljubavi moje (Sarajevo meu amor)



Até um dia...

Sarajevo Lujbavi moje (Sarajevo meu amor) - Primeira parte

Tenho o hábito de todos os dias ler as notícias e ver os cabeçalhos dos jornais para estar a par do que se vai passando no mundo.
Quando abro as notícias sobre o nosso país, e um pouco à imagem do mundo ultimamente, normalmente são más notícias. Quando tenho tempo costumo ler os comentários às notícias, e o que vejo e leio são lamentos e mais lamentos.

Costuma-se dizer que os lamentos, a par com o sentimento de saudade, o futebol e o fado fazem parte do ADN de todos os Portugueses. Também eu por várias vezes caio no erro de me lamentar acerca do estado do nosso país e mesmo da minha vida, mas tal como todos os Portugueses devemos estar mais preocupados em viver e lutar para melhorar a vida do que em lamentarmo-nos, porque na verdade cruzarmos os braços e lamentarmo-nos não adianta de nada.

Quando me lamento arrependo-me logo a seguir devido a uma das mais extraordinárias lições de vida que recebi, e que por vezes infelizmente me esqueço.

Em 2005, durante uma viagem pela ex-Jugoslávia visitei a cidade de Sarajevo, capital da Bósnia Herzegovina. Antes de visitar a cidade apenas recordava as imagens de guerra que inundaram os noticiários de todo o mundo durante os três anos de cerco à cidade. Recordava nomes como a tristemente célebre avenida dos snipers, o Hotel Holliday Inn, o edifício bombardeado do jornal Oslobodenje e o mercado da cidade, todos eles infelizmente célebres por maus motivos.
Avenida dos snipers
Antes de entrar na cidade passei por vários locais e em todos eles vi o espelho de um quotidiano de guerra que aquele país atravessou durante os anos conturbados de guerra civil, mas também vi locais de uma beleza natural capaz de nos fazer sentir pequenos, como o vale do Rio Neretva, o mesmo que passa na fantástica ponte de Mostar, o que me levava a perguntar como era possível ter havido uma guerra num local tão belo. Infelizmente essa é uma pergunta que ficou sem resposta.
Avenida principal
Após passar por todos esses locais, finalmente chegamos a Sarajevo, entrando na cidade pela célebre avenida dos snipers, hoje um local repleto de prédios de habitação enormes com marcas de guerra visíveis nas fachadas.
Após estacionarmos num dos parques do centro da cidade, decidimos percorrer o centro em busca de um local para dormir. Saravejo é uma cidade marcada por três períodos distintos (Otomano, Austro-húngaro e Jugoslavo), sendo facilmente identificado cada um deles apenas percorrendo a avenida principal em direcção ao centro, que termina na Bascarcija (mercado), que é a zona que mantém a traça Otomana.
Hotel destruído no centro da cidade
Ao percorrer a avenida principal em direcção ao centro, encontrei muitas esplanadas e cafés abertos e algumas pessoas a passear pelas ruas. É uma sensação estranha passar por um local que conhecemos apenas das televisões e no qual vemos em cada canto imagens conhecidas, porém tão diferentes.
Ao passar numa dessas ruas um homem interpelou-nos, perguntando num inglês bastante perceptível se estávamos à procura de um sítio para ficar.


Ao início não reparei bem nele porque estava distraído a tirar fotos, mas depois observei-o atentamente. Trazia um fato bege bastante usado, e pelo aspecto diria que se tratava de um homem perto dos 60 anos e de aparência bastante humilde.
A Bascarcija
Em conversa, contou-nos que tinha cerca de 40 anos, o que me surpreendeu bastante porque aparentava ter muito mais idade. Perguntou-nos também a nossa nacionalidade, e como trazíamos Polacos na nossa comitiva, contou que tinha estado durante algum tempo a trabalhar na Polónia. Também nos contou que desde a guerra que estava desempregado. Como na altura já tinham passado 13 anos desde o início da guerra civil pensei para comigo como era possível alguém estar tanto tempo desempregado e conseguir subsistir.

Como ainda não tínhamos encontrado nenhum sítio para ficar decidimos ver a casa deste homem e pelo caminho fomos conversando. Dessa conversa retive na memória alguns dos diálogos que fomos tendo...
Num dos pontos da Bascarcija, disse-nos:

- Neste cruzamento, num raio de 300 metros há uma mesquita, uma sinagoga, uma igreja católica e outra ortodoxa. Durante 500 anos vivemos em paz, foi preciso vir o Milosevic para começarmos a lutar uns contra os outros!

Ainda durante o caminho para a sua casa, uma das nossas colegas de viagem perguntou o preço do alojamento, e ele disse-nos que era 15 euros a cada um. Ela queixou-se que era caro e que esperava que a casa tivesse boas condições, ao que ele respondeu que há 10 anos, durante a guerra, não havia um único edifício com os vidros intactos ou fornecimento de electricidade ou água na cidade. A mensagem foi clara: não esperem luxos por preços simbólicos. 

Ao passar por uma fonte numa praça, disse-nos que quem bebesse água dessa fonte ia regressar um dia a Sarajevo. Mais tarde vim a saber que o nome dessa praça era praça dos pombos. Mais adiante falarei dessa praça.
Hotel destruído perto da Avenida dos Snipers
Finalmente chegamos à casa do homem. Era uma casa bastante humilde, mas limpa. Honestamente para mim chegava e bastava, sabia a história daquele sítio e por aquele preço não esperava uma mansão. No entanto, algumas colegas estavam de pé atrás, uma preocupada pela segurança com medo que nos fizessem alguma coisa e outra com o preço que ele nos pediu. Alguns de nós como eu não nos importávamos de ficar, no entanto não íamos separar o grupo, pelo que decidimos não ficar.

Ao dizer-lhe que não íamos ficar reparei numa foto em particular. Uma foto antiga, desse homem com uma menina. Pelas feições pareceu-me ser filha dele, e lembrei-me de em conversa ele dizer que tinha uma namorada. Passou-me pelo pensamento que aquele homem podia ter perdido a família durante aqueles dias de tragédia, o que apesar de não ter certeza absoluta do que pensei fazia muito sentido pelo aspecto envelhecido e trágico daquela pobre alma.
Edifício do Parlamento
Enquanto lhe comunicávamos a decisão de que não íamos ficar, reparei na mudança de feições do pobre homem. No entanto o pior foi ao sair da sua casa, tendo-me virado para trás, e vi-o sentado numa cadeira a olhar para a porta pela qual nós passávamos. Nunca tinha visto ninguém com um olhar tão profundo de tristeza, desespero, derrota e resignação. Era como se tivessem aberto um enorme buraco negro na sua alma.
Ao ver tudo aquilo senti-me muito mal comigo próprio porque sabia que provavelmente aquele dinheiro ia garantir que ele subsistisse durante algum tempo. 

Do nosso grupo houve quem sentisse o mesmo:

M. – Pessoal, estou a sentir-me muito mal comigo próprio, temos de ajudar de alguma maneira este homem.
Hugo – Sim, concordo contigo M., também me sinto pessimamente.
M. – Vamos oferecer-lhe 20 euros e dizer-lhe que é como agradecimento pela visita guiada pelas ruas que fez.
A. – Sim, vamos.
Ao entrar novamente pela porta, apesar de notar que ainda estava atordoado ele tinha em parte recuperado o ânimo e estava ao telefone. Ao terminar de falar ao telefone, o M. começou a falar com ele.
M. – Sr, como foi tão atencioso connosco e nos mostrou o centro de Sarajevo, gostávamos de o recompensar pelo seu tempo e dar-lhe este dinheiro.

A reacção dele foi a seguinte:
 - Agradeço a oferta mas sou um cavalheiro e por isso não posso aceitar.

Antes de sair ainda nos mostrou um caderno com algumas declarações de pessoas que ficaram na casa dele, a dizer que era uma excelente pessoa e que gostaram muito de lá ter estado, o que fez com que me sentisse ainda mais triste.
Quando nos juntamos aos nossos colegas, uma delas perguntou-me se tínhamos ido regatear o preço. Ao ouvir isto quase explodi de raiva, mas em vez disso apenas me saiu uma frase de forma maquinal e fria: Não regateio com pessoas desesperadas!

Depois deste episódio fomos buscar a carrinha para procurar um dos endereços que anotei antes da viagem de possíveis locais para ficar. Disse-lhes que há 10 anos aquela cidade estava completamente destruída e que não esperassem encontrar as condições que encontrariam em casa. Era óbvio que estava a recriminar quem se tinha recusado a ficar lá, estava furioso com o que tinha acontecido, sobretudo com a falta de sensibilidade da nossa colega que me perguntou se tinha regressado para regatear.

Por fim, acabamos por descobrir um sítio para ficar com boas condições, e o ambiente começou a desanuviar. O local onde ficamos ficava sobranceiro à cidade, e de lá podíamos ver toda a cidade espraiada pelo vale do rio Miljacka. Nessa altura apercebi-me da enorme quantidade de sepulturas que rodeavam Sarajevo. Já tinha visto antes as fotos da cidade, mas não deixa de ser chocante visto ao vivo e a cores...
Aproveitámos para descansar um pouco até à hora de jantar, mas pensava para comigo que queria sair dali o mais rapidamente possível, o olhar desesperado daquele homem juntamente com a visão que tinha acabado de ver e o que sabia sobre a cidade estavam a deixar-me com um sentimento misto de tristeza, culpa e revolta.

Lembrei-me de uma foto que tinha visto há muitos anos durante a guerra, uma imagem a preto e branco, que revelava uma verdade indesmentível, fria e desprovida de sentimento, na qual aparecia uma parede esburacada por estilhaços e buracos de bala, com uma frase a spray: Welcome to hell.

Finalmente compreendia o real significado dessa frase, mas apenas uma pequena fracção, nada comparável com o quotidiano medonho desses dias de inferno, miséria e morte.

11 de julho de 2011

Scar tissue

Durante a minha vida tive vários períodos bastante atribulados, em que as incertezas e as dúvidas eram mais que muitas e me sentia como um barco sem leme nem velas, vogando à deriva  num imenso oceano de dúvidas. Nesses períodos valeu-me uma grande dose de tenacidade, paciência, teimosia, orgulho e sobretudo, dos bons amigos que sempre tive e me apoiaram.



Esta é uma história sobre uma dessas amizades da idade parva da adolescência, em que as dúvidas são grandes e em que temos uma vontade enorme de mudar o mundo, desafiar as convenções, de conhecer, explorar e gozar a vida, mas sobretudo, é a idade em que é definido aquilo que seremos como adultos, e em que as verdadeiras amizades ficam e outras menos verdadeiras acabam.



Nesse período tive o apoio de poucos mas bons amigos, daqueles que nos acompanham desde os tempos do preparatório e com os quais passamos os anos da adolescência e com os quais partilhamos memórias de momentos de companheirismo, amizade e apoio nas horas menos boas.
Dos muitos amigos desse tempo ficaram o Lopes, o Tendeiro, o Caliban, o Carrasco, o Monteiro, o Pereira, o Cangalhas e o Seco. Todos tínhamos em comum o facto de termos andado na mesma escola, alguns desde o preparatório e outros que vim a conhecer apenas no secundário. Não éramos os mais famosos da escola, nem os mais inteligentes (exceptuando o Monteiro). Éramos tipos normais como tantos outros.
Desse tempo ficou muita coisa na memória, mas o que mais recordo foi as idas em grupo à praia da Fonte da Telha, Portinho da Arrábida e ao Vimeiro no velho e lendário Rover 400 do Tendeiro e no Punto do Caliban e as passagens de ano em casa do Tendeiro. Foram momentos bem passados que me deram alento para enfrentar um período complicado.
No entanto em 1999 tudo mudou. Venci as duras batalhas que tinha pela frente e todo um mundo de oportunidades e experiências abriu-se de repente na minha vida, fazendo com que a minha vida desse uma volta de 180 graus.

O facto de entretanto ter mudado de cidade fez com que fosse perdendo o contacto aos poucos com esse grupo, mas de vez em quando nos fins-de-semana ou nas férias ainda nos encontrávamos para manter contacto, até que em Dezembro de 2000 recebi a triste notícia que o seco estava doente.

Nunca tinha lidado com uma situação destas, por isso quando falei com ele nem sabia o que dizer. Apenas consegui dizer que estava sem palavras e que podia contar com a minha amizade. Queria dizer-lhe muito mais, mas infelizmente não encontrei as palavras certas…
Apesar de saber que era grave nunca me passou pela cabeça que ele não ia dar a volta por cima, por isso fui deixando passar os dias e semanas, até que…


No dia 11 de Julho de 2001 à noite estava na biblioteca da Universidade a estudar para um exame. A minha concentração nunca foi muito boa, mas nesse dia estava totalmente desorientado e não conseguia perceber porquê.
Entretanto recebi um sms, e quando fui ver o que era eis que recebi a triste notícia que o nosso amigo tinha partido. Foi um choque enorme para mim porque não estava à espera, sempre acreditei que ele ia dar a volta por cima, mas infelizmente tinha perdido um amigo…
Ainda hoje me culpabilizo porque devia ter estado mais presente quando ele precisou dos amigos, mas nunca previ que as coisas levassem o rumo que levaram. Sempre previ outro rumo e uma grande vitória na dura batalha pela vida.

Podia e devia ter estado mais presente.

Hoje passam 10 anos desde esse triste dia, e tenho-me lembrado desses tempos que trazem memórias tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas, e apesar de ser uma data triste, ficou muita coisa boa desse tempo, mas uma das coisas que mais recordo é de 1999, num certo dia de Agosto, em que viajávamos em direcção ao Portinho para mais um dia de praia e Voleyball. Na rádio tocava scar tissue dos red hot chilli peppers. Éramos jovens, amigos e todos tínhamos um futuro radiante pela frente..




Alguns cumpriram-no, outros ficaram aquém das expectativas criadas, e outros simplesmente não puderam alcançar o zénite da vida por motivos maiores que a própria vida, mas todos temos uma história de amizade verdadeira para contar, e nunca esqueceremos os bons momentos passados.


Seco, onde quer que estejas, estarás sempre presente na minha memória. Um grande abraço amigo...

9 de junho de 2011

crónicas da aldeia - Uma pequena grande lição

Em miúdo, apesar de ser uma peste de primeira, também tinha momentos em que era menos travesso e conseguia ser mais querido...
Um dos hábitos que tinha nesse tempo era o de apanhar flores por tudo o que fosse campo, canteiros e até nos jardins dos vizinhos para oferecer à minha mãe, quase todos os dias...Num desses dias decidi apanhar as flores que estavam num dos canteiros da casa, e lá fui eu todo contente oferece-las à minha mãe.
A resposta da minha mãe não podia ser mais contundente…

- Hugo, então tu foste arrancar as ervilhas ao teu pai!???

Moral da história: As boas intenções por si só não enchem a barriga de ervilhas…

7 de junho de 2011

Crónicas da terra - A tia do pão com tulicreme

Como todos os miúdos da minha geração, também eu passei os verões (e vivi durante algum tempo) na “terra”, que no meu caso é uma aldeia algures entre a Serra dos Candeeiros e o Oceano Atlântico.
Dessa aldeia recordo muitas coisas que fizeram parte da minha infância, e que por boas ou más razões ficaram gravadas na memória, como quando a luz eléctrica pública foi instalada e finalmente a aldeia saiu da penumbra característica assim que o sol se punha, de ter caído e esfolado os joelhos e o queixo nos degraus que davam acesso à casa do meu avô, o que fez com que ele nos dias seguintes decidisse rapidamente acrescentar um degrau para que não voltasse a cair, dos longos passeios pelos campos cobertos de vinhas e árvores de fruto, de apanhar amoras no vizinho do lado, das vindimas em família quando nos juntávamos para apanhar as uvas e as pisávamos no lagar, das muitas idas à minha praia de infância, dos passeios de carro pela Serra dos Candeeiros e pelas redondezas, do primeiro dia de escola, dos inevitáveis piolhos, do primeiro grupo de amigos verdadeiros (e dos quais fui inevitavelmente perdendo o rasto até não sobrar nenhum) e de uma das minhas tias (chamemos-lhe a tia do pão com tulicreme).
De todas as lembranças de infância, a tia do pão com tulicreme é uma das mais agradáveis que tenho J
A tia do pão com tulicreme sempre me adorou. Porquê não sei, porque honestamente eu era uma peste em pequeno que nunca parava quieto e estava sempre a cair no chão de tão rápido que corria. Era o que se chamava ter mais vontade de correr do que força nas pernas, já que era um magricela, por isso andava grande parte desse tempo com os joelhos esfolados e cheios de mercúrio e pensos.




Volta e meia punha a família (e a terra) em alvoroço com as minhas tropelias. Ainda me lembro de quando decidi encher de pedras o depósito de combustível da mota de um dos meus tios, ou de quando decidi que havia de ir para casa a meio de um piquenique e pus os meus pais e os amigos à minha procura por toda a parte, enquanto eu estava tranquilamente a jogar jogos de tabuleiro em casa com a minha companhia de “fuga” (nunca acreditaram que chegasse a casa, mas como tinha dito a verdade livrei-me de levar uma surra, o mesmo já não se pode dizer da minha companhia desse dia…ainda hoje sinto remorsos por ter sido o responsável) ou ainda de quando perdi os óculos que detestava usar ao pé de uma fonte e tiveram de despejar a água dessa fonte para procurá-los lá dentro, e no fim não os encontraram. Felizmente por uns tempos não usei óculos, mas só até à próxima visita ao oftalmologista :S
Apesar de todas as minhas tropelias e de por vezes ficar de castigo, a minha tia tinha sempre um sorriso compreensivo e uma palavra amiga.
Depois de um dia de tropelias, lá ia eu tocar à campainha para ter com o meu primo, e ela recebia-me sempre com um sorriso, uma palavra amiga, e uma sandes de pão com tulicreme acompanhada de um refresco. Escusado será de dizer que volta e meia lá ia eu ver os meus tios e o meu primo…e o pão com tulicreme. Havia que juntar o útil ao agradável…


Muitas coisas mudaram desde essa altura…Deixei de ser magricela, de usar óculos tamanho xxl, de ter os joelhos esfolados e cobertos com mercurio e de fazer tropelias, entre outras coisas. A “terra” também mudou graças ao progresso, e embora os tempos tenham trazido coisas que antes não tinha, está cada vez mais vazia da alegria e do colorido que recordo na minha infância. Na velha escola primária onde aprendi a ler, escrever e contar as lições dadas tantas vezes pelos professores nas salas de aula terminaram, os quadros passaram a estar vazios de palavras, letras e números, as crianças já não brincam no recreio, e grande parte dos campos já não estão cultivados.
Hoje em dia a minha tia já não me dá pão com tulicreme (embora quisesse duvido que o encontrasse à venda) e já tem dificuldade em se deslocar por estar a avançar para o crepúsculo da vida.
 No entanto continua a receber-me com o mesmo sorriso e o mesmo afecto de sempre. Felizmente ainda há coisas que nunca mudam.